Out 17, 2018

Irão Os 'Super-humanos' Substituir-nos?

Stephen Hawking aparentemente pensava assim. Na grande tradição de físicos famosos que fazem afirmações sobre assuntos além de seu foco de especialização, o grande teórico britânico revelou, especulou e previu o futuro humano. Num ensaio, publicado no Sunday Times, Hawking argumentou que a humanidade corre o risco de ser substituída por "super-humanos" geneticamente modificados.

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Pesquisas bem intencionadas destinadas a melhorar a saúde humana e a vida humana, escreveu Hawking, acabarão corrompidas. As pessoas irão começar a modificar os seres humanos para viverem mais, serem mais inteligentes ou mais agressivos e perigosos.

"Uma vez que tais super-humanos apareçam, haverão problemas políticos significativos com os humanos não melhorados, que não serão capazes de competir", admitiu. "Presumivelmente, vão morrer ou tornar-se sem importância."

Hawking estava certo preocupar-se com este tipo de distopia? O físico enquadrou o problema em termos surpreendentes. Mas, não está sozinho nesta preocupação, em que a humanidade está a caminhar para um território perigoso, à medida que as tecnologias genéticas melhoram.

Actualmente, a edição de genes disponíveis para humanos trata quase exclusivamente problemas médicos graves. Para doenças mortais e incuráveis, os médicos alteraram os genes das pessoas para evitar que essas doenças continuem a progredir. Isto, às vezes tem sido bem sucedido, como a Live Science relatou recentemente. Também foram feitas experiências iniciais na China sobre a edição de genes germinativos, fazendo mudanças genéticas que podem ser transmitidas de geração em geração, para evitar que os pais transmitam doenças genéticas para os seus filhos.

Os bioeticistas levantaram preocupações sobre para onde tudo isto está a caminhar. As preocupações mais imediatas, no entanto, não são sobre super-humanos. O primeiro problema com a terapia genética é que não é tão bem compreendida, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano (NHGRI). Os investigadores ainda não conhecem todos os possíveis efeitos colaterais da edição de genes, ou o risco dessas mudanças serem passadas de uma geração para outra.

De acordo com o NHGRI, "Na transferência de genes da linhagem germinativa, as pessoas afectadas pelo procedimento, aquelas para quem o procedimento é realizado, ainda não existem. Assim, os possíveis beneficiários não estão em condições de consentir ou recusar, tal procedimento ".

No entanto, se a edição genética se generalizasse, haveria o risco de estar disponível apenas para os ricos, e que os esforços para prevenir doenças genéticas poderiam confundir-se com os esforços para criar seres humanos melhorados, de acordo com os Institutos Nacionais de Saúde.

O Centro para a Ética da Saúde da Universidade do Missouri também publicou um documento on-line  levantando a possibilidade de que os esforços para eliminar doenças genéticas pudessem, de facto, levar à erradicação eugénica das pessoas com deficiência da sociedade. E, de acordo com o Centro, numa sociedade onde os seres humanos são aprimorados, os "modelos" anteriores de risco humano tornam-se obsoletos, ecoando o medo de Hawking.

Mas, quanto mais próximo um argumento bioético chega ao mundo que Hawking imaginou, mais vagas as previsões se tornam, isto porque a ciência ainda está muito longe desse ponto. E, neste momento, esse tipo de conversa costuma ser confusa, disse Matthew Willmann, biólogo e director do Centro de Transformação Vegetal da Universidade de Cornell.

"Eu estava frustrado (para ler o que Hawking escreveu) porque, para mim, se você quiser assustar as pessoas sobre uma tecnologia que tem alguns benefícios incrivelmente positivos para a humanidade, você faria previsões como esta", disse ao Live Science.

É teoricamente possível que o mundo dos super-humanos de Hawking possa emergir, disse Willmann. "Poderia acontecer? Sim. Mas há muita coisa a acontecer para impedir que isso aconteça", confessou.

Instituições científicas e governos estão a desenvolver estrictos códigos de ética e leis que regulam a edição genética, ressaltou. E essas leis seriam incrivelmente difíceis de contornar sem que o mundo percebesse.

No programa de TV "Orphan Black", uma equipa de cientistas decide editar e melhorar um grupo de bebés clonados, e todos os cientistas precisam de dinheiro e disposição para fazer coisas más.

Mas a realidade, apontou Willmann, é que a genética é muito complicada e confusa para que isto funcione. "Você só pode fazer edições quando tiver informações sobre como os genes funcionam", disse.

Na sua pesquisa, ele é capaz de criar plantas com traços genéticos específicos apenas criando primeiro muitas plantas com genes danificados, mortais ou estragados. Com o tempo, ele e os seus colegas descobrem quais genes fazem o quê e, portanto, como esses genes precisam de ser modificados para obter os resultados desejados.

Mas, isto só é possível porque "como eu sempre digo, as plantas não choram". Um projecto similar em seres humanos levaria muito mais tempo, e seria, se não inimaginável, difícil de ser realizado numa sociedade moderna.

Então, Hawking estava certo em preocupar-se com uma nova espécie de super-humanos substituindo os nossos? É difícil de dizer definitivamente não. Mas provavelmente não vai acontecer tão cedo, e há preocupações éticas mais importantes na genética para se preocupar, entretanto, disse Willmann.