Culture & Art
Mar 1, 2017
A HISTÓRIA DA BAUHAUS - UTOPIA, TEORIA, DESIGN
Nascida das cinzas da Primeira Guerra Mundial, ainda hoje não se pode contornar a importância que os seus 14 anos de existência trouxeram ao mundo, sob um conceito radical para a época: re-imaginar todos os materiais do mundo e reuni-los à volta de todos os tipos de arte.
Esta foi a visão que o arquitecto alemão Walter Gropius (1883-1969) explicou, na abertura da actividade daquela que viria a ser a escola mais revolucionária de sempre, no campo das artes e do design: a Bauhaus, em Weimar, Alemanha (em alemão, Bau Haus, significa "construção de casa"). Nascia assim uma associação de artistas que combinava disciplinas como a arquitectura, escultura e pintura, numa singular expressão criativa.
Durante o curto espaço da sua existência, Gropius desenvolveu um projecto onde reunia artesãos e designers, capazes de construir objectos úteis para o dia-a-dia e que, ao mesmo tempo, aliassem conceitos estéticos, desenho elaborado de formas e funções bem objectivas e práticas.
A escola industrial Bauhaus combinava elementos originários das belas-artes e do design. Os novos estudantes que tinham de passar por testes curriculares, vinham de diferentes áreas educativas e estratos sociais, e dedicavam-se a disciplinas como teoria da cor, relações sociais, desenho técnico ou história dos materiais. Estes cursos eram leccionados por conhecidos artistas da época como Paul Klee (Suíça, 1879-1940), Vasily Kandinsky (Rússia, 1866-1944) ou Josef Albers (Alemanha, 1888-1976).
A seguir a estes cursos preliminares, os alunos eram encaminhados para as oficinas onde se especializavam em artes como metalurgia, marcenaria, tecelagem, cerâmica, tipografia ou pintura de murais.
Embora o objectivo original de Gropius fosse a unificação de várias artes através dos ofícios, isto cedo provou ser pouco rentável. Portanto, mantendo o foco na aprendizagem de ofícios, a partir de 1923, o objectivo passou a apontar também para a produção das peças idealizadas à escala industrial. É assim que o conceito muda definitivamente para "da arte para a indústria".
Em Dessau, Alemanha, em 1925, Gropius inaugurou um novo edifício para a escola, que ele próprio tinha desenhado. Muitas das técnicas e correntes ainda hoje utilizadas na arquitectura moderna, nascem com este edifício, com construção assente em estruturas de aço e paredes de vidro, tudo reunido num plano assimétrico para maior ampliação e eficiência da lógica de utilização do espaço.
Walter Gropius viria a deixar de ser director da escola de artes em 1928, dando o seu lugar a Hannes Meyer (Suíça, 1889-1954), outro arquitecto, que manteve o foco na industrialização dos projectos. Lentamente, foi introduzindo uma nova linha de pensamento que se focava mais no bem-estar das pessoas, em vez de criar produtos altamente luxuosos e caros. A publicidade e a fotografia continuaram a ganhar importância no currículo da escola, sob a sua direcção que, viria a ser curta.
Em 1930, Meyer deu lugar ao terceiro arquitecto na direcção da emblemática escola: Ludwig Mies van der Rohe (Alemanha, 1886-1969), que reconfigurou o currículo, voltando a colocar ênfase na área da arquitectura e criou novos cursos, como fotografia, belas-artes e construção.
Dada a conjuntura política e social alemã, mudou a escola para Berlim, tendo acabado por fechar a escola em 1933.
Os estúdios
O workshop de marcenaria, dirigido por Marcel Breuer (Hungria, 1902-1981) tornou-se um dos mais populares, entre 1924 e 1928. Este estúdio criou um novo conceito para o mobiliário, através da desconstrução do conceito da cadeira clássica (por exemplo), reduzindo-a a uma estrutura minimalista. Era sua ideia que as cadeiras viriam a ser substituídas por simples colunas de encosto, suspensas no ar. Inspirado na estrutura tubular da bicicleta em que se deslocava, o estúdio desenvolveu estruturas em metal, muito leves e prontas a serem produzidas em larga escala. Algumas delas, equiparam os estúdios do edifício de Dessau.
Naturalmente, este estúdio colaborou muito perto com o curso de metalurgia, criando protótipos muito bem-sucedidos, devidamente preparados para produção em massa. Neste estúdio cursaram designers como Marianne Brandt (Alemanha, 1893-1983), Wilhelm Wagenfeld (Alemanha, 1900-1990) e Christian Dell (Alemanha, 1893-1974) que criaram belíssimas peças modernas como candeeiros de mesa e de sala, ou bases para mesas. Estas peças foram sempre introduzidas nas áreas escolares da Bauhaus.
Brandt foi a primeira mulher a integrar a classe de metalurgia e veio a substituir o director inicial do curso, László Moholy-Nagy (Hungria, 1895-1946), em 1928. Muitos dos seus projectos tornaram-se ícones da estética da escola Bauhaus, destacando-se o seu conjunto de chá, escultural e geométrico em prata e ébano que, embora nunca tenha sido produzido em larga escala, reflete bem a influência do seu mentor, Moholy-Nagy, e o foco da escola em desenhar formas industriais.
Em tecelagem, especialmente durante a direcção de Gunta Stöltz (Alemanha, 1897-1983), o estúdio criou os têxteis adequados à decoração dos ambientes da escola. Para além do estudo da teoria da cor, Stöltz encorajou os estudantes a utilizarem materiais pouco ensaiados como celofane, fibra de vidro e metal. Os materiais desenvolvidos, geraram fundos essenciais para a sobrevivência da escola e, em conjunto com a classe de pintura de murais, viriam a adornar os espaços do interior dos edifícios, criando ambientes abstractos e policromáticos nas superfícies mais amplas do Instituto.
Inicialmente, o curso de tecelagem acolhia apenas mulheres, visto que estas eram desencorajadas a ingressar nos outros cursos da escola. Este estúdio viria a gerar grande parte dos mais proeminentes artistas de tecelagem da era moderna, incluíndo Anni Albers (Alemanha, 1899-1994), uma das mais importantes designers de tecidos da actualidade, que continuou a criar novas peças e a inovar técnicas até à data da sua morte, em Connecticut, nos Estados Unidos, e que, pouco depois de abandonar a Bauhaus, casaria com Josef Albers, um dos impulsionadores da escola, desde o início.
O curso de tipografia não era dos cursos mais procurados, no início de vida da escola, vindo só a ganhar interesse e candidatos sob a direcção de Moholy-Nagi e do designer gráfico Herbert Bayer (Áustria, 1900-1985). Na época, a tipografia era essencialmente vista como uma forma meramente empírica de comunicar através de uma expressão artística clara. Mas pouco depois, era reconhecida como elemento essencial da identidade visual de comunicação da própria escola. A utilização de tipos de letra sem serifa, em articulação com imagens bastante gráficas serviram de inspiração para o movimento avant-garde (anos 1960-1970).





