Science & Nature

Mar 2, 2018

A DERRADEIRA ARMA

As grandes pastagens podem ser uma resposta para acabar com as áreas de desertos e amenizar os efeitos do aquecimento global, defende o ambientalista e agricultor zimbabuano, Allan Savory que, em tempos, foi responsável pelo abate de 40 mil elefantes.

Por ALFREDO MIRANDA

É ponto assente entre ambientalistas: quando grandes grupos de animais herbívoros pastam num determinado local, o solo fica muito degradado. Os animais destroem a vegetação à medida que comem parte das plantas e pisam o restante. Sem a vegetação e as raízes que ajudam a absorver a água, o ecossistema pode ser comprometido a ponto de transformar a região em deserto.

O biólogo nascido no Zimbabué, Allan Savory, pensava assim. Em 1950, ele tomou uma atitude polémica para resolver este assunto: comandou a matança de 40 mil elefantes que, em tese, estariam a destruir a vegetação de um parque africano no Zimbabué.

A medida sugerida pelo especialista foi levada a cabo e os elefantes foram sacrificados a tiros ao longo de dez anos. Mas a situação do parque só piorou.

Hoje, Allan Savory arrepende-se da decisão. "Foi o maior erro da minha vida", diz. "Vou carregar esta culpa para o meu caixão". Movido pelo sentimento de culpa, colocou como meta pessoal o estudo de soluções para acabar com o problema da desertificação no mundo.

E, após anos de pesquisa, tornou-se adepto de uma solução que soa inusitada aos ouvidos dos ambientalistas tradicionais: a pastagem holística. Nessa técnica, os rebanhos são estimulados a pastar como faziam antigamente sem a interferência humana, e não confinados apenas a um local.

Nos últimos anos, a ideia começou a ganhar força e adeptos e, recentemente, Savory apresentou os resultados mais recentes do seu trabalho numa palestra no TED (o canal YouTube de conferências que tem mais de 1,2 milhões de visualizações) e as suas teorias passaram a ser replicadas por mais de 2,5 mil fazendeiros.

"Não existe outra técnica mais eficiente para resgatar áreas em processo de desertificação", afirma. E defende "plantar relva e árvores, criar sistemas de irrigação, usar máquinas para revirar o solo artificialmente; nada disso é tão eficaz como deixar a natureza voltar ao seu curso natural, que nós interrompemos".

A técnica proposta por Savory é simples: garantir a segurança e a alimentação de grandes grupos de animais numa determinada pastagem durante alguns dias, mas sem lhes impedir a movimentação. O biólogo sustenta que foi assim que a natureza funcionou durante milénios, até o homem encurralar os animais e limitar os seus movimentos.

"O problema não está no gado, mas na forma como ensinamos os animais a pastar, sempre no mesmo local", afirma. Segundo ele, as patas dos animais ajudam a quebrar o solo endurecido, o que aumenta a infiltração de água. Importante é que não permaneçam tempo demais no mesmo local, para não acabar com a restante vegetação.

Ao longo de dois anos, Savory agrupou o gado em blocos compactos, movimentou os rebanhos por locais diferentes e analisou a evolução da vegetação. No final deste período, identificou o aumento na quantidade de minerais do solo, fundamentais para a dieta das plantas: nitrogénio, fósforo, potássio, cálcio e magnésio. Mais do que isso, viu a vegetação voltar a crescer rapidamente.

Savory já colocou a sua teoria em prática em África, na Austrália e na Nova Zelândia e também nas Américas do Norte e do Sul, com 10 mil criadores de gado que, somados, detêm uma área de 16 milhões de hectares. Usam animais como vacas, bois, búfalos, zebras, girafas e elefantes para recuperar o solo e prevenir a desertificação.

Quem adoptou esta técnica mostra-se extremamente entusiasmado. É o caso do fazendeiro Ivan Aguirre, do Rancho Inmaculada, no estado de Sonora, no noroeste do México. "Depois de 15 anos, o meu gado está bem alimentado, as plantas estão mais saudáveis e o número de áreas secas é bem menor em relação às propriedades vizinhas", diz ele.

Em Dimbangombe, no Zimbabué, uma região de 2,9 mil hectares que estava a caminho de se tornar um deserto registou um aumento do número de plantas de quatro vezes em apenas cinco anos. E, na Patagónia, o engenheiro agrónomo argentino Pablo Borreli diz que "os resultados começaram a aparecer muito rapidamente. Em dois anos, a vegetação começou a recuperar-se". Na sua quinta, 25 mil ovelhas foram colocadas a pastar em bloco. Depois de um ano, o volume de vegetação aumentou em 50 por cento.

Muitos cientistas e investigadores permanecem cépticos em relação à técnica de Savory. "É surpreendente que as ideias dele repercutam tanto. A teoria é antiquada e apoiada em muitos conceitos que não contam com o apoio de nenhum ambientalista sério", diz o professor de ciência de ecossistemas David Briske, da Texas A&M University. "A técnica de Savory deixa o gado fatigado e mais magro, o que tira boa parte de seu valor comercial."

Em defesa de Savory, o biólogo Justin D. Derner, chefe de desenvolvimento do Serviço de Pesquisa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, diz que não entende a indisposição contra o africano. "Depois de tantas décadas estudando os mecanismos globais deste grande organismo vivo que é a Terra, ainda não conseguimos nem sequer afirmar com certeza o que provoca a desertificação", diz. "O trabalho de Allan carece de fundamentação científica em muitos pontos, mas ainda assim dá resultados."

O ambientalista e agricultor Allan Savory, diz entender as críticas: "quando demonstro que a pecuária integrada ao ecossistema pode fazer bem a o solo, parece simplista e bom demais para ser verdade." É graças à influência de seus críticos, diz o biólogo, que os governos receiam adoptar as iniciativas do Instituto Savory. O Brasil, por exemplo, não considera o uso sustentável do pastoreio como uma alternativa à desertificação da caatinga (uma extensa área de mata branca no nordeste brasileiro) e de parte do cerrado, optando por apostar em projectos de cisternas, curvas de nível, manejo florestal e pecuária apenas nas orlas das plantações.

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