Science & Nature

Jul 1, 2017

O FUTURO INTELIGENTE

A era das coisas "smart" ameaça transformar muitas coisas em "smart"-qualquer-coisa. E, um dos aspectos importantes destas transformações, é que o tamanho das "smart"-coisas já não é uma limitação. 

Os conceitos de smart city ou cidade do futuro já não fica apenas no domínio da ficção científica ou de uma qualquer ideia longínqua de organização social. E não, também não se trata de serem ocupadas apenas por carros pequenos ou de Wi-Fi gratuito para todos.

Que não haja dúvida: as cidades já estão a mudar e, em breve, as nossas cidades vão ser smart! E o que contribuiu fortemente para esta profunda mudança é a tecnologia e os seus avanços.

O desenvolvimento da "Internet of Things" (uma rede de interacção entre dispositivos físicos), implementação de sensores de vários tipos e com diversas funções, redes de telecomunicações cada vez mais rápidas, sistemas de localização geográfica, "Cloud Computing" e "Big Data" têm contribuído para a simbiose dos mundos físico e digital.

Num futuro próximo, todos estes componentes estarão interligados, em comunicação permanente e em tempo real, e terão capacidade para alterar coisas tão simples como o trajecto de regresso a casa no final de um dia de trabalho.

Mas o que são, de facto, cidades inteligentes?

São cidades mais eficientes, automatizadas, autónomas, sustentáveis e agradáveis de se viver. São cidades que acolhem os habitantes em vez de os repelir.

"Imaginação pura", dirão alguns.

Estima-se que, em 2020, 20% de todos os aparelhos estejam conectados. E, os números da ONU apontam para que, em 2050, uns espantosos 70% da população global estará a viver e a trabalhar em cidades. Para se ter uma ideia, estamos a falar de 6,7 mil milhões de habitantes.

Actualmente, já estão a ser implementadas redes de transporte inteligentes e autónomas, já existem automóveis que não precisam da permanente intervenção do elemento humano e até já existem cidades onde os contentores e qualidade do lixo estão a ser monitorizados para uma melhor gestão de resíduos e até de reciclagem.

Em São Francisco, nos Estados Unidos, os sistemas de gestão de trânsito já permitem reencaminhar enormes massas de veículos por vias alternativas, reduzindo assim o consumo desnecessário de combustível e a emissão de gases poluentes. Em Barcelona, Espanha, estão já implantados sensores que permitem prever alterações climatéricas, evitando o desperdício de água. Na Holanda, na ilha de Ameland, foi recentemente instalada uma nova iluminação pública "inteligente": novas lâmpadas LED inteligentes emitem uma luz suave azul-esverdeada, tornando-se brilhante e forte mediante a aproximação de peões. E há quem considere Londres, em Inglaterra, como a cidade mais inteligente da actualidade e "um laboratório vivo para experiências tecnológicas".

Ainda acha que é imaginação?

"Inteligente" não significa apenas conectar aparelhos ou serviços, significa armazenamento de quantidades massivas de dados. O objectivo é claro: fazendo convergir a recolha de todos os dados para um centro de comando, é possível avaliar com segurança, o estado de saúde da própria cidade para que a sua eficiência possa ser melhorada a cada momento.

Porque, uma cidade, para ser inteligente, terá mesmo de o ser. Isto é, para além de recolher esse volume monumental de dados, terá de saber o que fazer com eles e, sobretudo, saber actuar em função deles melhorando o desempenho dos serviços, dos habitantes, dos transportes, equipamentos e até dos edifícios.

Existe uma corrente de opinião que defende que a criação de cidades inteligentes não é uma tendência tecnológica, mas um imperativo político, social, ambiental e económico.

E há fortes sinais de que, perante as evidências, as classes políticas estão muito empenhadas em criar suportes legais que previnam que este "lock-in" tecnológico possa ser instrumentalizado no sentido da perda de privacidade, liberdades e direitos dos cidadãos.

Isto porque, nesta era do fenómeno "Big Data", os dados recolhidos têm sido frequentemente considerados como imparciais e isentos de ideologia política. E isto não é necessariamente verdade, uma vez que estes dados estão muitas vezes condicionados a contextos, metodologia, tecnologia de recolha e sujeitos a escrutínio na fase de processamento, gestão, análise e armazenamento.

Torna-se, por isso, necessário compreender que a organização das cidades são sistemas sociais complementares e complexos, moldadas pela cultura e pela escala económica, geradoras de dinâmicas e conflitos. E que estas evoluções tecnológicas devem ser colocadas ao serviço de uma maior inclusão de diferentes origens e culturas, na criação de condições para o envolvimento dos cidadãos na tomada de decisões e na definição de futuro urbano.

Quase 70 anos após a publicação da obra "1984" de George Orwell, volta a pairar o conceito do "Big Brother".

É que, por mais inteligentes e eficientes que as (inevitáveis) cidades do futuro possam ser, é importante ter em conta que é muito provável que elas venham a destruir a democracia. E, no limite, devemos entender que os benefícios destas "smart cities" são inegáveis. E chegámos ao ponto em que a pergunta correcta não é tanto se nos podemos dar ao luxo de as construir, mas antes, se nos podemos dar ao luxo de não as criar.

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