Culture & Art

Jun 1, 2017

O ETERNO CAPITÃO

Os franceses consideram-no uma das mais importantes figuras da sua história. Se tal não fosse redutor, até poderia ser verdade. A verdade, porém, é que este senhor, cuja imagem associamos de imediato ao gorro vermelho, foi uma das personalidades mais importantes e marcantes do século XX para o mundo inteiro.

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A melhor forma de resumir a sua importância, vem num obituário datado de 1997, no dia a seguir à sua morte, escrito pela pena de Hélène Crie-Wiesner, no diário francês Libération: "antes dele, o mar era um buraco negro, como era também o espaço antes das primeiras missões tripuladas serem equipadas com câmaras fotográficas".

Se, como já foi referido nas páginas desta revista: até à data, apenas 5% dos segredos dos oceanos são conhecidos (ver edição de Abril de 2017, páginas 64 a 67), quase lhe podemos atribuir a fatia de ser responsável pelo conhecimento de 3% desse valor.

Comandante da Marinha francesa, documentarista e cineasta apaixonado pelo cinema, oceanógrafo, inventor, investigador, prestigiado académico, negociador feroz e interlocutor privilegiado das mais importantes personalidades da sua época, viria também a dedicar-se à causa ecológica, onde obteve uma parte importante do reconhecimento mundial.

Jacques-Yves Cousteau (JYC ou "Jique" para os seus amigos e colaboradores), nasceu em 11 de Junho de 1910, em Saint-André-de-Cubzac, na região de Gironda, em França. Filho de Daniel e Élisabeth Cousteau, Jacques-Yves era o segundo de dois irmãos.

Completou os estudos superiores no Collége Stanislas, em Paris; um prestigiado colégio de cariz religioso, fundado em 1804.

Em 1930, Jacques-Yves, entra na Escola Naval onde se viria a graduar como oficial. Inscreve-se no curso de piloto-aviador da escola de pilotos da Marinha de d'Hourtin (ainda na Gironda) em 1935, mas o seu sonho de filmar o mundo a partir do ar, acaba uns meses mais tarde, contra uma árvore, num acidente de viação, ao volante de um carro desportivo.

Este afastamento acaba por se revelar fortuito, uma vez que os seus companheiros do curso de aviação acabam todos por morrer nas primeiras semanas da Segunda Guerra Mundial.

Casa em 1937 com Simone Melchior, filha de um oficial de Marinha e dupla neta de Almirantes. A cerimónia tem lugar na igreja de "Les Invalides", rodeada de todas as honras militares e ladeada pela famosa Guarda-Suíça.

Regressa assim à arma de artilharia da Marinha onde viria a travar conhecimento com os colegas mergulhadores dos escafandros de chumbo que exploravam os rios na região de Marselha.

É durante este período que começa a preocupar-se com a falta de movimentos e agilidade dos seus colegas e decide começar a trabalhar na invenção de protótipos de aparelhos de respiração de oxigénio em circuito fechado e escapa mais duas vezes à morte durante mergulhos, ainda ignorando que o oxigénio de torna tóxico a dez metros de profundidade.

Em 1942, participa no afundamento da frota francesa em Toulon, com a patente de Tenente, o que não o impede de dar os primeiros passos na fotografia do mundo aquático. Coloca a sua máquina dentro de um caso estanque para fazer as suas fotos, apenas voltando à superfície de tempos a tempos para respirar.

Já em Paris, JYC conhece o engenheiro de ar líquido Emile Gagnan. Este engenheiro tinha acabado de aperfeiçoar o sistema de válvulas com pressão, aplicável aos gaseificadores dos motores. Era o que Cousteau precisava para distribuir o ar comprimido ao ritmo da respiração.

Ainda em plena Segunda Guerra, em 1943, na praia de Bandol (Côte d'Azur, a sudeste de Marselha), o Aqualung (tradução de "pulmão aquático"), construído pelos dois, mostrava a sua eficácia e autonomia. Este é "apenas" o mesmo princípio que ainda hoje é utlizado em aparelhos idênticos.

Cousteau parte para Inglaterra em 1944, não para se juntar a Charles De Gaulle, mas para vender o aparelho aos aliados.

Calypso

Depois da guerra e até ao final da década, Jacques-Yves Cousteau mantém-se ao serviço da Marinha francesa, realizando mergulhos regulares nas missões de procura e destruição de eventuais munições, cargueiros de mercadorias ou submarinos afundados. Mas JYC sonhava ampliar os seus horizontes e lançar-se definitivamente na oceanografia; queria um barco só para ele, para poder ir onde bem entendesse.

Encontra então um patrono inglês que lhe oferece, a preço de saldo, um varredor de minas utilizado a seguir à guerra, baptizado Calypso. Jacques-Yves decide reformar-se da Marinha e utiliza todo o dinheiro do seu bónus de serviço a equipar o seu futuro navio oceanográfico.

E, a 19 de Julho de 1950, Jacques-Yves Cousteau torna-se, finalmente, comandante de navio na vida civil.

Desde o início que os projectos que leva a cabo se revelam extremamente ricos em conhecimento e rentáveis para os seus patrocinadores de expedição. Algo que fez tocar campainhas no mundo inteiro (mais uma vez). Desta vez, através de um alto funcionário das Nações Unidas que sinaliza, à revista "Life", a existência de JYC, realizador de filmes submarinos e co-inventor do primeiro escafandro autónomo.

Isto representa a abertura ao mercado americano, do qual nunca mais saiu enquanto vivo. A "Universal Pictures", ao ler o primeiro tema da revista "Life" (sete páginas repletas de fotografias e texto), adquiriu imediatamente todos os direitos sobre os filmes já conhecidos: Par Dix-Huit Mètres de Fond (1943); Epaves (1946); Paysages du Silence (1947) e Um Plongée du 'Rubis' (1950).

Esta compra veio permitir equipar ainda melhor o Calypso e partir para a primeira verdadeira expedição de longo curso e duração. Destino: Mar Vermelho; patrocinador e cliente: National Geographic Society.

Decorria o ano 1951. A bordo do Calypso, 11 tripulantes, entre os quais a sua mulher Simone. À volta do Calypso, várias embarcações, carregadas de cineastas e equipamento acompanham a expedição e tomam consciência que, o habitual preto e branco é demasiado pobre para o registo subaquático e toda a riqueza do espectáculo a que estavam a assistir.

Novamente, as equipas do comandante mais conhecido do mundo, meteram mãos à obra e desenvolveram as melhores técnicas de iluminação e captação de imagem a cores. Estes desenvolvimentos, ainda hoje são aplicados neste tipo de trabalho por todos os cineastas mundiais.

Seguem-se uma série muito extensa de distinções mundiais: Palma de Ouro em 1956 pelo filme "Monde du Silence", realizado pelo jovem (23 anos) Louis Malle; um Óscar da Academia de Hollywood no ano seguinte e, também em 1957, a nomeação pelo Príncipe Rainier para a presidência do museu oceanográfico do Mónaco.

Jacques-Yves Cousteau virá ainda (durante a década de 1960) a ser contratado por petrolíferas para a exploração de bacias de petróleo sub-aquáticas no Golfo Pérsico. Cousteau aceita porque quer filmar os bancos de corais.

Até 1972, JYC envolve-se em vários projectos de pesquisa sub-aquática desastrosos e quase deixa de navegar.

Em 1972, Simone (que ele respeitará até à sua própria morte), assume residência no Calypso, no lugar de "mãe da tripulação" e voltam as grandes expedições. Ela manterá este posto até à data da sua morte em 1990.

Em 1996, o Calypso viria a afundar-se ao largo de Singapura – em resultado do embate com uma barcaça – quando se fazia ao mar para uma nova expedição, desta vez o destino era o Rio Amarelo, na China. O icónico barco foi resgatado em 2007 e, após dez anos de trabalhos de recuperação, voltou a navegar em 2016.

Mesmo quando, no final dos anos 1970, JYC se apaixona por Francine Triplet, uma hospedeira da aviação, este promete-lhe que nunca oficializará esta relação enquanto Simone fosse viva.

A própria existência de dois filhos (Diane e Pierre-Yves) desta relação com Francine, só se torna conhecida em 1992.

Apesar de ter participado activamente nalguns projectos industriais internacionais, aos poucos Cousteau vai tomando consciência do seu impacto no mundo que ele tanto amava. E, mesmo sendo considerado por muitos como um mero engenheiro, JYC já era um intermediário importante entre o grande público e os decisores mundiais.

Até que, em Setembro de 1995, quando Jacques Chirac aprova ensaios nucleares no conhecido Atol de Mururoa (na Polinésia francesa, Oceano Pacífico), Cousteau insurge-se como nunca, até então: "Párem! Párem imediatamente"!

Bernard Violet e Richard Munson descreveriam Cousteau, numa biografia odiosa e odiada: "é um falso resistente, um falso marinheiro e um falso ecologista".

O seu contributo para o conhecimento dos oceanos é que nunca ninguém se atreveu a colocar em causa.

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