Lifestyle & Travel

Jul 1, 2017

A CIDADE DAS CAVERNAS

Quase se pode dizer que é uma cidade "bipolar". É "apenas" um dos locais habitados pelo Homem mais antigos do mundo, tendo a sua origem ainda na pré-história. E é também um dos locais mais preservados.

Situada no Sul de Itália, a cidade de Matera é uma das mais antigas cidades do mundo continuamente habitadas, a par de Aleppo, na Síria, e Byblos, no Líbano.

Estende-se pela encosta do desfiladeiro rochoso de Murgia e calcula-se que tenha sido fundada há mais de nove mil anos. Por causa disto, não é fácil de falar sobre Matera sem contar um pouco da sua história conhecida.

Na era do paleolítico, as cavernas da região eram os abrigos perfeitos para os nossos antepassados. Sabe-se hoje que algumas das cavernas eram formações naturais e que outras foram, entretanto, sendo escavadas na rocha.

Desta forma, a cidade foi crescendo de forma caótica, dado que estas escavações se iam amontoando sem uma ordem ou ligação. As escavações eram feitas em profundidade (de cima para baixo) o que gerou o labirinto que ainda hoje se pode visitar.

Isto permitia a criação de dois ou três ambientes com funções diferentes, sendo os mais baixos, mais frios e húmidos e, portanto, serviriam como depósito de alimentos ou como estábulo de animais, para gerar calor que aquecia os ambientes superiores destinados a habitação.

Mais tarde, a cidade entrou no roteiro de povos nómadas que ali se abrigavam nas suas viagens em busca de pastagens para o seu gado. Alguns destes pastores foram-se estabelecendo ali e a cidade foi crescendo com novas grutas até à chegada de gregos e romanos que deram início a uma constituição um pouco mais ordenada.

Entre os séculos VIII e XIII, os monges da igreja greco-bizantina refugiaram-se na cidade e essa é a razão de muitas das cavernas terem sido transformadas em igrejas rupestres. E hoje, a cidade divide-se claramente em duas partes bastantes distintas.

No ponto mais alto da cidade, bem visível em toda a região, ergue-se a Catedral de Matera, construída entre 1230 e 1270.

Esta segunda parte, mais moderna, começou a ser desenvolvida a partir do século XVII. Por esta altura, começaram a surgir os edifícios que compõem a zona mais nova da cidade, mais alta e mais plana.

Dada a actividade pecuária e agrícola da região, foram sendo construídas, casas de habitação, mansões para os senhores, conventos e mosteiros. Foram também sendo construídas cisternas para recolher águas e um sistema hidráulico inovador para a época, que garantia a distribuição e abastecimento de água a toda a cidade.

A partir deste crescimento, geraram-se as naturais clivagens sociais e, enquanto a cidade alta floresceu, a zona baixa das cavernas foi-se degradando. Sobretudo porque este crescimento deu origem a novas ruas e novos edifícios que obstruíram o engenhoso sistema de distribuição de água, afectando a agricultura e provocando um aumento de doenças como Malária, referida em muitos livros que retratam a época.

Em 1853, John Murray classificava Matera, no seu "Manual para Viajantes no Sul de Itália" como sendo uma cidade suja e que "as classes mais baixas são conhecidas como as mais incivilizadas de toda a província de Basilicata". O que não impediu que a população fosse crescendo até atingir 15 mil habitantes na primeira metade do século XX.

A região tornava-se assim numa vergonha nacional e um símbolo de pobreza e fome. O governo que tomou conta do país no período pós-guerra decretou então que a cidade baixa deveria ser evacuada completamente, deslocando as 15 mil pessoas a habitar a zona alta da cidade. Os Sassi (nome dado a estas cavernas que, na realidade, significa pedra, em italiano) deveriam ser destruídos ou, os que se encontrassem em menos mau estado, recuperados.

Finalmente, nos anos 1980, o governo italiano destina verbas para a recuperação da cidade e, depois da declaração de Património da Humanidade pela UNESCO, em 1993, a Comunidade Europeia associa-se a essa iniciativa e a cidade renasceu, agora, como atracção turística.

Pela sua história e paisagem, vários foram os realizadores de cinema que recorreram aos cenários naturais de Matera para filmar. De Alberto Lattuada, com o seu filme "A Loba", de 1953; a Pier Paolo Pasolini em "O Evangelho Segundo São Mateus" de 1964; e em 2004, Mel Gibson, em "A Paixão de Cristo".

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