Lifestyle & Travel

Nov 1, 2017

A CERVEJA QUE SE TORNOU BAIRRO

Não é das coisas mais vulgares de acontecer, uma marca de qualquer espécie de bebida crescer ao ponto de se tornar num bairro inteiro, no centro de uma grande capital europeia: Copenhaga, na Dinamarca.

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Por NAHAN SULEIMAN

A sensivelmente dois quilómetros e meio do centro de Copenhaga está a nascer um bairro construído, de raiz, pela conhecida marca de cervejas e sidras: a Carlsberg.

Quando, em 2007, o conhecido produtor transferiu a fábrica original para longe do centro da capital dinamarquesa, por falta de capacidade para abastecer o mercado interno dinamarquês, a empresa viu-se com um espaço livre, no total de 33 hectares, bem perto do centro da cidade.

Os planos para o futuro desta área, estavam já a ser preparados e ficaram completamente fechados em 2008. Aqui vai nascer o Carlsberg City District, um bairro formado por apartamentos residenciais, escritórios, jardins, pelo menos um hotel, lojas de retalho e zonas culturais e desportivas.

Segundo os planos da empresa, o bairro estará concluído e pronto para inaugurar em 2025. Contudo, este já se tornou numa das zonas mais procuradas da cidade para aquisição de casa e os preços da habitação continua a crescer consistentemente.

Ao contrário do que acontece com outras antigas áreas industriais remodeladas, esta zona não se tornou numa zona pobre, tão-pouco numa zona estupidamente rica. Segundo os responsáveis da marca, tal iria reflectir mal a filosofia da Carlsberg junto dos dinamarqueses.

O plano da marca valeu-lhe o prémio "Best Master" em 2009, no World Architecture Festival, em Barcelona, Espanha.

As novas construções vão conviver com algumas estruturas antigas em tijolo e a famosa Elephant Gate (Porta dos Elefantes), construída por Carl Jacobsen (filho do fundador da Carlsberg), que representam os seus quatro filhos e que ainda hoje surge em alguns dos produtos da marca.

Podemos então fazer a pergunta mais óbvia: como é que uma empresa de cervejas e sidras, ainda que de renome internacional, consegue levar avante um plano urbanístico com tais dimensões?

Projectos desta dimensão são difíceis de aprovar em qualquer parte do mundo, contudo a Carlsberg recebeu aprovação facilmente. Em primeiro lugar, porque a empresa já tinha todos os planos em ordem, bem como estudos do subsolo – fundamentais para a aprovação de projectos residenciais em espaços anteriormente ocupados por fábricas.

Depois, porque a própria cidade precisava de criar um novo bairro em Copenhaga, e as directivas sociais do projecto da Carlsberg visava essencialmente o bem-estar da população.

E, por último, mas não menos importante, porque a reputação da família fundadora da marca conta com um capital de boa vontade da parte da população dinamarquesa: Carl Jacobsen (filho do fundador) ofereceu à cidade uma enorme quantidade de arte ao longo dos anos – construiu, inclusivamente, um museu de arte, o Ny Carlsberg Glyptotek, perto do centro da cidade – e as doações anuais de 220 milhões de coroas dinamarquesas (quase 30 milhões de euros) da fundação Carlsberg à ciência, fazem a empresa estar muito bem vista por toda a população.

Já para não falar no enorme orgulho nacional.

Entre a aprovação do plano, em 2008, e 2012, não se avançou quase nada em termos de construção devido à crise económica mundial. Durante esse período, a marca patrocinou vários eventos desportivos e culturais, e convidou inúmeros artistas a quem deu toda a liberdade para criar o que bem entendessem.

Segundo a história de Carl Jacobsen, bem conhecida dos dinamarqueses, isso seria algo que ele certamente aprovaria, uma vez que um dos motes da sua vida foi: a arte não tem de produzir valor imediato, tem de produzir história.

Os Jacobsen

Um dos motivos que levou Jacob Christian Jacobsen a estabelecer, em 1847, a sua fábrica de cerveja nos arredores de Copenhaga, foi a altitude do local (36 metros) e o consequente acesso a água de qualidade.

Deu-lhe o nome do filho, Carl, ao qual juntou 'berg' que, em dinamarquês significa colina e que era uma das características desta localização, já que a Dinamarca é um país de terras planas.

Apesar da fama dos dinamarqueses como o povo mais feliz do mundo, a história da relação entre Jacob e Carl ficou marcada pelos conflitos entre pai e filho, cheia de elementos dramáticos que davam para fazer um filme: amor, traição, heranças perdidas e recuperadas e laços de família quebrados e reactivados.

Ainda jovem, Carl foi expulso da Carlsberg pelo pai, por discordar de uma relação amorosa que Jacob não aprovava. O jovem viajou pela Europa durante anos, trabalhando em várias fábricas para adquirir conhecimentos de diferentes produtores de cerveja.

Na sua passagem pela Escócia, apaixonou-se pela jovem Ottilia Stegmann, filha de um importante comerciante que viria a tornar-se sua mulher e decidiu voltar com ela à sua terra natal. Ottilia viria a cair nas boas graças de Jacob, que a via como uma boa influência para o filho e este retorno deu-se sem percalços.

Trabalhadores e ambiciosos, pai e filho tinham visões bem diferentes do mundo. Jacob Christian Jacobsen – que estava ligado à política, tendo chegado a ser membro do Parlamento – queria que a Carlsberg fosse um exemplo para outras fábricas, tanto pelos valores de trabalho, quanto pelo sucesso financeiro.

Carl, por seu lado, queria fazer dinheiro para comprar toda a arte que entendesse. Foi ele quem encomendou a estátua da Pequena Sereia – um símbolo de Copenhaga – ao escultor dinamarquês Edvard Eriksen.

A relação entre os dois voltou a azedar quando Carl foi trabalhar para a fábrica e criou a sua primeira cerveja – uma ale, diferente do estilo ao qual as pessoas estavam habituadas na altura – que não teve grande sucesso. Por isso Carl foi pedir ao pai permissão para fazer também uma lager como a da Carlsberg, de modo a poder financiar-se (e assim comprar mais arte).

O pai recusou e o filho roubou a receita. Pior do que o furto foi o facto de ter cortado o período de estágio da cerveja de nove para seis meses – um sinal de compromisso no nível de qualidade, aos olhos do pai. Foi a gota de água para o pai que deu um ultimato a Carl: ou fazia da forma dele, ou saía novamente da fábrica.

Carl ignorou a ameaça do pai – afinal, como filho único, a quem mais poderia deixar a empresa"? Em 1876, Jacob Christian Jacobsen deserda o filho, deixando toda a sua herança à fundação – ainda hoje sócia maioritária da Carlsberg.

Ainda com a licença que o pai lhe concedera para criar a sua primeira cerveja, Carl construiu uma nova fábrica (a Ny Carlsberg) a 300 metros da original. Os dois reconciliaram-se em 1887, mesmo antes da morte de Jacob Christian Jacobsen.

Com o passar do tempo, a Ny Carlsberg estagnou, ficando à beira da falência. Carl decide então doar a sua empresa à Carlsberg – já a maior produtora de cerveja na Dinamarca, na altura –, sob a condição que fosse ele o dono de tudo. Surge assim a Carlsberg unificada.

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