Culture & Art
Jul 1, 2017
ARQUITECTURA SUSTENTÁVEL
Diz-se frequentemente que, depois de ir a África, nunca mais se é o mesmo. É o continente mais genuíno do mundo. É por isso que a sustentabilidade é tão importante.
Vamos dar um passo de meio século para trás e conhecer a vila de Gando, no Burquina Faso. É a vila natal de Diébédo Francis Kéré e é um locais mais pobres do mundo. Em Gando, os aldeões ainda vivem em pequenas cabanas feitas de lamas, com telhados de chapa ou palha; têm níveis de literacia abaixo da média nacional de 25%, não têm acesso a electricidade e pouca água lá corre.
Diébédo nasceu em 1965 e era o primeiro filho do chefe da aldeia. Como tal, foi enviado para a escola, para aprender a ler e escrever, na grande cidade de Tenkodogo, quando tinha sete anos.
Completou o ensino secundário em Tenkodogo e, como era um bom estudante, recebeu uma bolsa de estudo da Carl Duisberg Society, na Alemanha, para aprendizagem como um supervisor na ajuda ao desenvolvimento. Este curso levou-o a estudar arquitectura na prestigiada Universidade Técnica de Berlim, onde se formou em 2004.
E este levou-o à decisão de devolver à sua aldeia alguma coisa do que tinha aprendido na Europa. Com um grupo de amigos, na Alemanha, Kéré criou uma associação de angariação de fundos chamada "Schulbausteine für Gando" (Escola de Tijolos para Gando, em Português).
Tendo o financiamento assegurado, voltou para Gando, para iniciar o trabalho da nova escola, utilizando apenas as competências, materiais e técnicas locais.
De início, a comunidade olhava com cepticismo para a ideia de usar o barro na construção da escola, porque o barro era visto como um material pobre, pouco provável que resistisse à estação das chuvas. Os aldeões esperavam ter um edifício escolar em betão, à maneira Francesa (Burquina Faso, anteriormente chamada República do Alto Volta, foi uma colónia Francesa).
A opção revelou-se como a mais sensata, porque a utilização de betão teria sido ao mesmo tempo mais cara e altamente desaconselhada para enfrentar os dias de 40º e mais no Verão. Em vez disso, o uso do barro era muito mais barato, disponível no local e ainda promoveu o envolvimento da comunidade.
Todos os dias, as crianças tinham de chegar à escola com uma pedra grande à cabeça. Os homens e mulheres da aldeia, ajudaram a partir as pedras para preparar o chão, recolheram pedra para as fundações e amassaram terra em tijolos para as paredes da escola, reduzindo assim radicalmente os custos enormes dos construtores e engenheiros europeus.
Ao mesmo tempo, os aldeões também recebiam formação num leque de técnicas de construção, desenvolviam as suas próprias competências e asseguravam para si próprios outros trabalhos de construção.
A arquitectura é esteticamente perfeita na sua simplicidade (tijolos e um enorme telhado em ferro ondulado) que arrecadou o prémio Aga Khan em 2004 e o Swiss BSI Architectural Award em 2010, das mãos da estrela da arquitectura Mario Botta, que endereçou estas palavras: "O trabalho de Francis Kéré não é apenas um projecto de ajuda, mas também um trabalho de alta qualidade arquitectónica com elementos básicos, o chão, as paredes e o telhado. Por isso pode dizer-se que Francis Kéré nos dá uma grande lição. A sua arquitectura lembra-nos o seu significado original que é a protecção do homem".
O projecto inicial levou a uma escola secundária, uma livraria escolar, alojamentos para os professores, bem como o Mango Tree Project, dedicado a melhorar a alimentação dos aldeões e combater a subnutrição.
A singularidade do trabalho Diébédo Francis Kéré levou-o a uma ampla gama de projetos em todo o mundo, incluindo o Centre for Earth Architecture em Mopti, no Norte do Mali; os museus da Cruz Vermelha Internacional e do Crescente Vermelho em Genebra e o Zhou Shan Harbour Development na China.
A cidade da música "Remdoogo", no seu país, estende-se já por mais de 12 hectares, com uma sala de espectáculos e um anfiteatro, centro médico, escola, casa de convidados e painéis solares.





