Science & Nature

Jul 1, 2017

SOBRE OS OMBROS DE GIGANTES

O mundo vive hoje tempos conturbados e a história da humanidade tem mostrado que as crises económicas reflectem crises civilizacionais mais profundas, de valores. Processos e conhecimentos que já tínhamos dado por adquiridos são novamente postos em causa. 

Apesar de vivermos num mundo imerso em ciência, esta têm sido mal compreendida e tem-se gerado um progressivo crescimento de correntes de contestação que vão desde as teorias da conspiração mais absurdas até aos movimentos criacionistas, passando pelos de Anti Vacinação e da Terra Plana. Estas não são meras posições teóricas. Têm implicações praticas na vida das pessoas e informam decisões com impacto para muita gente e durante muito tempo.

A concepção comum da ciência é errada e bastante desfasada daquilo que pode ser apreendido tendo em conta a ciência da ciência ­- ou filosofia da ciência se preferirem - e a sua história ou seja a epistemologia.
A ciência é um dos três grandes sistemas ou processos de conhecer e nos relacionarmos com o mundo à nossa volta. Estes são a crença, o que acreditamos dogmaticamente, isto é, sem critica ou raciocínio lógico, e que não carece de constatação. É o caso das religiões. Depois há o conhecimento empírico e sensorial que advêm das nossas experiências e do que se impõe aos nossos sentidos. E por fim, há a ciência.

Para a percepção errada da ciência contribuem sobretudo confusões sobre a capacidade de esta produzir conhecimento verdadeiro e eterno. Uma grande parte das pessoas parte do principio de que a ciência produz verdades absolutas enquanto outra parte crê que o conhecimento que ela produz é tão valido como qualquer crença ou que é apenas mais "uma teoria".

Outra das confusões prende-se com a neutralidade ou imparcialidade da ciência. E, neste aspecto, confunde-se muitas vezes cientistas com ciência, ou ciência e a sua aplicação.

Como conhecer o mundo pensando

Como é conhecido o nascimento da ciência é normalmente atribuído aos gregos há mais de 2500 anos. Em boa verdade, é o desenvolvimento do pensamento filosófico grego que propõe um novo processo de conhecer, que está para além dos outros dois já mencionados. Da maiêutica socrática como geradora de dúvidas criticas, à lógica aristotélica, os gregos foram responsáveis pelo início de uma revolução na forma de pensar. Deles nasceu a geometria e a álgebra. Eles ensinaram-nos e explicaram que acreditar ou observar não basta para conhecer. Foram os primeiros a provar que os sentidos e as crenças nos enganam muitas vezes. Nomes como Arquimedes, Euclides ou Pitágoras são incontornáveis para o mundo que temos hoje e para a forma como pensamos sobre as coisas. Quer acreditemos ou não na ciência.

Interregno no pensamento

Apesar da conquista romana do império grego, o conhecimento produzido foi preservado e mantido, e os romanos herdaram muito dos gregos sobretudo no que diz respeito a filosofia politica e a tecnologia.

Com a queda do império romano, a institucionalização do catolicismo na forma da igreja e a sua ascensão ao poder na Europa feudal, criou-se um interregno na evolução do conhecimento, uma vez que a crença na interpretação que a igreja fazia dos textos bíblicos foi sobreposta a qualquer outro tipo de conhecimento.

No século XV, o renascimento e a invenção da imprensa por Gutenberg, e no século XVI, a reforma protestante acabam por criar o ambiente propicio ao que se seguiria.


Revolução cientifica

A publicação de "De revolutionibus orbium coelestium" de Nicolau Copérnico foi o marco do inicio de um processo que ainda hoje dura e contou com as contribuições de Galileu, Descartes, Isaac Newton, Lavoisier, Faraday ou Darwin.

Mais recentemente Max Plank, Heisenberg, Einstein, Schrödinger ou Gödel vieram dar um novo impulso a ciência revelando que a realidade se estende muito para além do que era imaginado e que as suas leis não se conformam inteiramente com os cálculos, observações ou experiências até então realizados.

Não, não é "só uma teoria"

Serve esta história para explicar que, em primeiro lugar, a ciência foi e é um processo de contestação ao poder que estava instituído e que ditava a forma como se pensava o mundo. O processo cientifico contesta antes de mais a legitimidade do poder pela determinação do que é verdade e, desta forma, é revolucionaria e democrática. É um processo que retira a produção de verdade e conhecimento pela posição e status social e a transfere para qualquer pessoa que seja capaz de construir, defender e demonstrar racional e logicamente um raciocínio.

Em segundo lugar serve para demonstrar que a ciência não oferece verdades absolutas, esse é o papel da crença, neste caso religião. Caso o fizesse estaria a ser dogmática e a contrariar um principio da sua criação: o da possibilidade e dever de ser questionada e corrigida. É um processo que se baseia na dúvida, questionamento, refutação ou corroboração.

Em terceiro lugar demonstra que a ciência é um longo sistema cumulativo de coerências, isto é, o que é conhecido, ou descoberto, deve ser coerente tanto com o percurso anterior (premissas) como com as áreas adjacentes. Assim formando uma dupla verificação: a do próprio questionamento, por outros; e a da coerência com o percurso e outras "solidificações". Pode assim acontecer que novas questões refutem ou corroborem o conhecimento ou descoberta anterior, ou que o corpo anterior acabe por refutar ou corroborar as novas descobertas.

Em quarto lugar a ciência descobre em vez de criar - as propriedades ou "lógicas" já lá estão - ao invés de "inventar" ou criar. Isto tem como consequência a possibilidade de confirmação por outros.

A ciência é um processo que se verifica e prova, que permitiu e resultou em desenvolvimentos tecnológicos que por sua vez alimentam novas descobertas num ciclo onde podemos encontrar o parafuso de Arquimedes, máquinas a vapor, ou o grande tributo de Marie Curie: o radio, o raio RX e a radiação que levou Einstein e outros até a bomba atómica; o avião, a luz eléctrica ou o computador, o microscópio as bactérias, o antibiótico ou as vacinas. 

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