Luxury & Fashion

Fev 29, 2016

Um Dia Havemos de ir a Viana

País de seculares tradições na arte da joalharia, Portugal tem uma valiosa herança de jóias e de metais preciosos de beleza intemporal provenientes da época dos Descobrimentos, particularmente do Oriente, no séc. XV e do Brasil, no séc. XVIII. É neste contexto que se desenvolve a Filigrana – a arte de trabalhar metais (ouro, prata, bronze), uma das artes portuguesas mais características.

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A Pé d´Mar, uma marca fundada em 1968, em Viana do Castelo, deu um novo rosto às jóias portuguesas em filigrana, reconhecidas mundialmente como as mais finas e singulares. Apesar de não ser específica da tradição cultural portuguesa, a arte da filigrana, de formas predominantemente barrocas, desenvoveu-se no séc. XVIII, particularmente em Viana do Castelo, no Minho (norte de Portugal). A arte ganhou adeptos, especialmente entre as minhotas que, vestidas a rigor, ostentavam abundantemente jóias durante as festas em honra da Senhora da Agonia, tornando-se imagem de marca da região que tem até  direito a versos, sendo o mais conhecido: "se o meu amor não me engana/um dia havemos de ir a Viana". Além de constituir um adereço e marca de distinção social, a filigrana em ouro representava um investimento e uma mais-valia para as famílias. Hoje, a arte da filigrana mantém-se predominantemente no Norte de Portugal, em Gondomar (distrito do Porto), e Póvoa de Lanhoso (distrito de Braga), conhecida como a capital da filigrana.

Do latim Filum(fio) e Granum(grão), esta técnica de ourivesaria exclusivamente manual que consiste em enrolar dois finíssimos fios (da espessura de um cabelo) de ouro ou prata entre si, e pequeninas bolas de metal, exige um trabalho muito paciente, imaginativo e de grande destreza do artesão. A aplicação é feita sobre placas do mesmo metal desenhando motivos circulares, em espiral ou em "S" que soldados formam um desenho.

Após o processo de fundição, o metal é vertido numa "rendilheira", transformado em barra, que depois de passar pelos cilindros do laminador ganha a forma de chapa ou fio grosso. Este processo de filigranação do metal prossegue numa "fieira", espessa placa de aço crivada de orifícios sucessivamente decrescentes, repuxando os fios até obterem a espessura desejada. Uma vez confeccionado, o fio é empregue no enchimento de uma armação, que constitui o desenho do objecto. Normalmente, os fios usados são de ouro ou de prata, mas podem ser  igualmente de bronze ou outros metais.

Ao longo dos tempos, a filigrana tem sido acompanhada por duas correntes de produção e uso: como técnica de primor e de sentimento artístico, associada a adereços de luxo, de uso profano e sagrado, com apurado gosto no desenho cujo imaginário e configuração artística a integra num tipo de ourivesaria própria de classes sociais elevadas; como técnica de integração, a filigrana tornou-se mais complexa e perfeita, libertando-se da chapa de laminar e ganha lugar de peça individualizada sobre um esqueleto, estrutura ou armação.

Conhecida nas antigas civilizações grega, romana, chinesa e indiana, a origem desta arte é incerta, mas relatos históricos dão conta de contacto com a filigrana desde o 3º milénio a.C., no Médio Oriente. Porém, a técnica moderna da filigrana portuguesa tem origem popular e inspira-se em objectos de culto como relicários ou cruzes e, em peças de joalharia como as arrecadas ou os brincos típicos com corações ou à rainha, os colares de contas de Viana, etc. A versatilidade do trabalho de filigrana permitiu a criação de outro tipo de objectos como a caravela portuguesa, a colecção de medalhas, brincos e anel com a guitarra portuguesa – uma  edição comemorativa do Fado como Património Cultural Imaterial da UNESCO -, e o famoso galo de Barcelos são algumas das peças de filigrana inspiradas nas tradições nacionais. Respeitando todo o processo de fabrico artesanal, a Pé d´Mar pegou nos elementos tradicionais, inovou e criou linhas de jóiais às quais conferiu um carácter moderno, diferenciador e personalizado únicos. A versatilidade da filigrana aliada à criatividade tornou-a apetecível também na Arte, de que é exemplo o Coração de Viana usado nas exposições da artista portuguesa Joana Vasconcelos.

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