Science & Nature

Dez 1, 2017

OCEANOS EM PERDA ACELERADA

Desde os tempos mais remotos, a pesca tem sido uma das grandes fontes de alimento da humanidade. A riqueza dos recursos marinhos foi sempre assumida como uma dádiva ilimitada da Natureza. 

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Por NARUTO SHIZUKA

Mas, com o aumento do conhecimento e do desenvolvimento dinâmico das pescas a partir dos anos 50 do século passado, este mito tem desaparecido face à utilização intensiva dos recursos marinhos que, embora renováveis, não são infinitos e necessitam de ser bem geridos de modo a oferecer o seu contributo para o bem-estar da sociedade.

A pesca desenfreada pode ser mais prejudicial a ecossistemas marinhos que a poluição, alertou a directora-geral da organização não governamental (ONG) Oceana, Monica Peres.

Para a diretora-geral da ONG, muitas pessoas pensam que os oceanos têm uma distribuição uniforme das formas de vida em toda a sua extensão quando, na verdade, há grandes agregações de seres vivos em espaços restritos e áreas gigantescas sem vida. Quando a pesca é feita sem o manejo adequado nessas áreas em que a vida se concentra, o equilíbrio dos ecossistemas é ameaçado.

"Às vezes, a pesca é feita para retirar uma espécie que é abundante, mas com ela, aparecem espécies que vivem muitos anos e que se reproduzem lentamente. Essas espécies mais vulneráveis não aguentam a intensidade de pesca que a espécie-alvo aguenta", defende Monica Peres, destacando que é preciso proteger as espécies que são pescadas e usadas como alimento e as demais, que, quando caiem nas redes de pesca, são devolvidas mortas ao mar sem que existam benefícios.

"Precisamos respeitar a capacidade daquelas populações de se reporem. Toda a extracção de recursos vivos tem de ser feita dentro da capacidade do organismo de se repor", afirma.

Acções de preservação e de manejo, na visão da pesquisadora e de armadores pesqueiros, poderão contribuir para que os ecossistemas marítimos sejam capazes de resistir às mudanças climáticas no planeta.

Reservas ameaçadas

Já em 2010, o então secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, lembrava ao mundo que "uma grande parte dos recursos que assumimos como inesgotáveis estão gravemente ameaçados, implicando impactos profundos nos ecossistemas, economias e subsistência humana".

Daí para cá, a intensificação da pesca industrial tem levado à extinção das práticas tradicionais de pesca que preservam a riqueza natural das águas. Hoje, os métodos de pesca utilizados são os que capturam mais peixe em menos tempo, ignorando a destruição dos habitats marinhos e a perturbação de toda a cadeia alimentar dos oceanos.

A taxa de consumo dos produtos piscícolas continua a crescer a um ritmo superior ao da taxa da população mundial, colocando as reservas de peixe existentes sob enorme pressão (até 2025 é estimada uma população de 8,5 mil milhões de pessoas, sendo necessário pescar 162 milhões de toneladas para garantir o consumo de 25 quilos de peixe por pessoa e por ano). No entanto, a indústria da pesca, na maioria dos casos, parece querer continuar a fechar os olhos à viabilidade do sector a longo prazo, incentivando a exploração excessiva e descontrolada na corrida para pescar o último peixe dos oceanos.

As consequências da perda gradual da vida marinha dos oceanos poderão ser catastróficas no futuro. Aliás, como afirmam investigadores e vários dirigentes da indústria, as águas europeias estão praticamente esgotadas. No oceano Pacífico, as grandes frotas estrangeiras de pesca estão a eliminar o único meio de sobrevivência das populações locais costeiras: o atum. Muitas águas africanas, que serviram de palco para as operações de pesca europeias e asiáticas durante muitos anos, encontram-se hoje sobre-exploradas ou totalmente esgotadas, com os navios do Norte a deslocarem-se para a América do Sul.

Este alerta geral para a crise dos oceanos, tem incentivado um número crescente de consumidores e de armadores pesqueiros a defenderem que a biodiversidade é crucial para a existência de ecossistemas saudáveis e ricos.

Com menos de um por cento dos oceanos protegidos e os cientistas a apontar para o colapso iminente das reservas de peixe, é urgente travar a perda da vida dos oceanos e responder aos apelos da ONU para protegermos os recursos que consumimos.

PESCA SUSTENTÁVEL

Em todo mundo a pesca é uma actividade de alto valor social e é um trunfo para as economias, cuja gradual importância em relação aos outros sistemas de produção de alimentos tem evoluído, devido à prática sustentável que o sector pesqueiro tem desenvolvido e na criação de postos de trabalho no sector primário.

Os Governos e as organizações internacionais têm adoptado medidas para difundir os benefícios nutricionais e promover o consumo de produtos aquáticos, estimulando a sua inclusão na dieta alimentar diária.

Contudo, é necessário ter em consideração o impacto negativo da pesca nos ecossistemas aquáticos e os impactos ou ameaças e restrições sobre a pesca nos rios ou lagoas.

No que diz respeito à Pesca Continental, ela deve ser valorizada especialmente pela relevância dos meios de subsistência das populações. A actividade piscatória nos rios e lagoas deve ser parte fundamental de uma família comunitária cujo modo de vida depende de vários recursos naturais, implícitos no desenvolvimento sustentável para a redução da pobreza.

Por isso, os investimentos na pesca continental não podem ser negligenciados, já que as capturas nos rios e lagoas permitem enriquecer a dieta alimentar e os excedentes podem ser vendidos, dando rendimentos suplementares às famílias.

O mesmo se passa com a pesca artesanal no mar, que cria milhares de postos de trabalho e garante rendimentos importantes aos pescadores. São estes aspectos que têm colaborado de forma fundamental para o incentivo do desenvolvimento do sector pesqueiro mundial, onde a pesca artesanal no mar e nas lagoas e rios já representa grandes ganhos para as comunidades piscatórias ribeirinhas.

A pesca no mar e a pesca continental são faces da mesma moeda e não corpos estranhos ou diferenciados. A aquicultura convencional é rentável na costa marítima. Mas deve ser feita uma aposta forte no incremento da produção natural de recursos piscatórios, defendem os especialistas.

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