Science & Nature

Mai 1, 2017

EU, O SER COLECTIVO

Alguma vez parou para pensar que você não é um, mas sim muitos? Não me refiro apenas ao legado histórico, aquilo que assimilou dos seus pais, genes, tiques, maneiras de falar etc. Refiro-me a quantidade de organismos que fazem de si o que é, dos quais depende a sua vida e, até, a forma como a vive. 

São milhares de milhões, são mais do que as suas células e dão-lhe capacidades que você não teria sem elas. Vivem em si e dentro de si. Estou a falar das suas bactérias. Ou será que é você que é delas?

Quando em 1673 Van Leeuwenhoek, com o seu recém inventado microscópio, descobriu aquilo a que chamou animálculos, micro-organismos a que agora vulgarmente chamamos bactérias, estava longe de ter consciência de todo o impacto que essa descoberta iria ter. Na altura a origem das doenças não lhes foi atribuída imediatamente. Também a ideia da sua utilização não foi imediata, embora o homem já usasse estes seres há muitos milhares de anos sem o saber.

É apenas em 1859, que Louis Pasteur revela o papel das bactérias na fermentação e, posteriormente, em conjunto com Robert Koch (que daria o seu nome ao bacilo responsável pela Tuberculose), criam a Teoria microbiana das enfermidades.

Embora a descoberta de que, as bactérias desempenhavam também um papel benéfico na fermentação do leite para a obtenção de queijo, do vinho, vinagre ou da cerveja, foi como vilões que passaram a ser encaradas.

De facto, a falta de capacidade para controlar este "inimigo invisível" foi responsável por muitas mortes por Tuberculose, Tétano, Cólera, Sífilis, Pneumonia, entre outras. É apenas em 1928, após vários anos de pesquisas por causa do número de mortes, por infecção, entre os soldados da primeira guerra mundial, que Alexander Fleming descobre, diz-se que por acaso, a penicilina. Desenvolveram-se então vários antibióticos, as "bombas atómicas" das bactérias.

De vilões a aliados

Apesar de já haver indícios promissores, desde 1917, para o uso benéfico das bactérias, não só na fermentação, mas também na produção de, por exemplo, acetona; a chamada biotecnologia era apenas utilizada no processamento de alimentos – fermentação e enriquecimento de solos; e é só com a modificação genética das bactérias que começa a grande revolução da biotecnologia. Primeiro, em 1978 com a experiência de Herbert Boyer, na produção de insulina humana pela bactéria Escherichia Coli e, mais tarde, em 1980, com a decisão do supremo tribunal dos EUA de atribuir uma patente a uma bactéria geneticamente modificada (neste caso para decompor o petróleo bruto), utilizada, por exemplo, em derrames. Esta decisão acabou por abrir a viabilização económica de investimentos particulares na indústria da biotecnologia em geral e na investigação de biodegradantes para a poluição em particular – a biorremediação.

Após o fundamentalismo do asséptico no fim da década de 1990 e início do novo milénio, a comunidade científica foi desenvolvendo estudos que demonstraram, por um lado, o papel essencial das bacterias na saúde humana e, por outro lado, foi sendo revelada e concebida a saúde e o ser humano como resultado de todo um sistema de equilíbrio, não só com o ambiente externo, mas também com a interacção com as bactérias que vivem em nós e das quais depende a qualidade da nossa saúde e a própria vida.

O Eu colectivo

Partindo do que já se sabia sobre a flora intestinal, isto é, o papel da comunidade bacteriana na regulação do funcionamento do intestino e de como a alteração do seu equilíbrio, através da alimentação, pode causar diarreias ou prisão de ventre, as investigações foram-se estendendo a outros órgãos.

Estas acabaram por revelar distintas comunidades bacterianas na boca, esófago e estômago, bem como noutros sistemas como no respiratório, nariz, faringe e pulmões, e na pele. Esta caracterização acabou por resultar naquilo que foi chamado de microbioma humano e revelou informações surpreendentes como, por exemplo, a existência de mais bactérias no nosso corpo do que células, numa relação de 1 para 10, distribuídas por cerca de mil espécies diferentes. Ou de como é possível determinar, a partir da nossa "paisagem bacteriana", os nossos hábitos alimentares, sexo, idade, local, e mesmo se temos filhos, cão ou gato. É uma espécie de impressão digital bacteriana com a diferença de que esta vai-se alterando com a idade e com os nossos hábitos e ambiente.

O efeito é recíproco e, assim como os nossos comportamentos as afectam ao alterar o balanço do seu meio, também a quantidade e tipo de bactérias acabam por nos afectar na saúde como, por exemplo, maior ou menor propensão para estar doente ou mesmo para a obesidade.

Esta evolução cooperativa permitiu-nos mesmo dispensar algumas funções orgânicas que são executadas pelas bactérias, como é o caso da síntese de algumas vitaminas e produção de enzimas que aceleram a digestão de nutrientes. E pode ser muito mais profunda do que se supõe, como nos demonstram os estudos sobre a mitocôndria (ver caixa).

O sistema imunitário é outro dos benefícios desta "estreita amizade". As bactérias não só servem para estimular e "afinar" o nosso sistema imunitário que acabou por "perceber e distinguir" quais as boas bactérias e as más, mas também em que quantidades e sítios estas são ou não perigosas. Para além disso as bactérias "boas" acabam por ser a primeira linha de defesa, uma vez que qualquer outra que se tente infiltrar no organismo terá primeiro que competir por espaço e nutrientes com as que já lá estão.

Colonizados
No percurso da nossa vida vamos passando por diferentes níveis de interacção com o ambiente que se reflectem no nosso microbioma. As investigações revelaram que o feto é completamente desprovido de bactérias, mas o momento do nascimento é crucial para estabelecer o microbioma, naquilo a que é chamado a colonização bacteriana.

Recentemente percebeu-se que a diferença no tipo de parto (natural ou cesariana) resulta em bebés com maior ou menor propensão para doenças reparatórias e intestinais, uma vez que a passagem e contacto com o canal vaginal da mãe inicia, com efeitos benéficos, precisamente essa colonização nas vias respiratórias e no sistema digestivo do bebé. Ao contrário, bebés nascidos por cesariana eram colonizados inicialmente com bactérias da pele da mãe.

Hoje em dia em muitos hospitais, nos partos por cesariana, é praticado aquilo a que se chama o cultivo do microbioma, isto é, a recolha das bactérias da mãe que depois são colocadas no bebé.

Deste panorama geral, passamos aos actuais desafios que vão sendo explorados pelas investigações como, por exemplo, perceber a exacta variação de cada comunidade bacteriana conforme as alterações de hábitos, ou a total importância e função que desempenham em cada ambiente do corpo onde se desenvolvem. Essa é a origem de um grande projecto chamado Projecto do Microbioma Humano que reúne colaborações de universidades e centros de investigação de todo o mundo e que tem dado muitos resultados ao nível do conhecimento deste novo ser Humano.

Também todo um novo potencial se abriu ao nível industrial e comercial com novos tipos de medicamentos e alimentação probiótica e prebiótica que "cultivam" ou ajudam a desenvolver as "comunidades bacterianas".

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