Science & Nature
Ago 1, 2017
TRIGO DOURADO
A geóloga Tshiamo Legoale, cientista sul-africana com meros 27 anos de idade, afirma que as estatísticas indicam que a África do Sul possui cerca de 17,7 milhões de toneladas de refugo de minério de ouro, ou seja, embora o ouro já tenha sido retirado desse refugo, "sobram ainda quantidades ínfimas desse ouro" em partículas demasiado minúsculas para poderem ser recolhidas de modo tradicional.
A sua pesquisa sobre como seria possível recuperar todo esse desperdício aurífero granjeou-lhe o prémio do FameLab deste ano. O FameLab ocorre anualmente desde 2005 e é um concurso de âmbito internacional que premeia cientistas em várias finais nacionais (uma decorreu inclusivamente nas instalações da NASA, em 2015) até à final internacional que ocorre todos os anos no Festival das Ciências de Cheltenham, no Reino Unido. Os participantes são avaliados não só pela pesquisa que efectuaram mas também na excelência com que a conseguem apresentar, tendo os juízes em consideração a sua clareza, o conteúdo e as capacidades de comunicação, decorrendo em paralelo uma votação entre o público. Tshiamo Legoale saíu vencedora em ambas as votações, sendo a preferida tanto do público como dos juízes, competindo com outros 31 cientistas.
Legoale está a investigar métodos para utilizar o trigo como um híper-acumulador de ouro ou para, utilizando os seus termos, "cultivar ouro a partir de trigo", algo extremamente inovador no campo da pesquisa metalúrgica. Na prática, o trigo ao ser plantado no refugo das minhas de ouro irá absorver as partículas de ouro presentes na terra graças às enzimas naturais existentes nas suas raízes, sendo o ouro absorvido por todas as partes da planta, com excepção das sementes. Ou seja: os caules e a folhagem do trigo podem ser utilizados para recolher o minério aurífero sem que tal afecte os grãos de trigo, que podem ser consumidos na alimentação sem qualquer risco.
Este processo, chamado de fitoextracção, consiste na utilização de plantas para purgar solos contaminados ou poluídos pelo depósito de substâncias inorgânicas como elementos químicos e dejetos de minério. As plantas extraem o minério de um modo completamente natural, sem afectar negativamente o meio ambiente, sendo que o trigo consegue absorver ouro em quantidade superior a qualquer outra planta. O ouro acumulado nos cales e folhagem é depois recuperado queimando o trigo e extraindo o minério das suas cinzas.
Legoale, que leva a cabo a sua investigação na Mintek, empresa sul-africana líder mundial em inovações metalúrgicas, iniciou a sua pesquisa em modo piloto mas a Mintek espera poder expandir a sua aplicação ao longo dos próximos cinco anos, estando agora a focar-se em como poderão obter uma maior percentagem de ouro em cada colheita e afirmam querer testemunhar também qual o "impacto humano" da sua aplicação, seja pela utilização dos grãos de tripo para alimentação das populações, seja pela criação de emprego que este novo tipo de plantação em refugo de minério possa criar. Há que destacar o impacto social da vitória de Legoale, sendo a cientista uma jovem mulher sul-africana e representante de um dos três países do continente africano que marcaram presença no FameLab e espera-se que tal possa inspirar mais jovens a abraçar uma carreira no campo das ciências num continente ainda a dar os seus primeiros passos no campo da inovação tecnológica.
O departamento da Mintek no qual Legoale trabalha foca-se na mineração de pequena escala, um dos seus objectivos é a criação de emprego em comunidades marginalizadas utilizando a extracção natural de minério, um número extremamente amplo de sul-africanos reside em aldeias, vilas e cidades na proximidade de refugo de minério, estando expostos aos riscos dos solos poluídos com minério, estando sem emprego após o fecho das minas e, levados ao limiar da pobreza, podendo enveredar na mineração ilegal, extremamente arriscada em minas abandonadas. A sua investigação espera poder contribuir para a solução destes problemas.





