Science & Nature

Mai 1, 2017

DE CAMARÃO A PLÁSTICO

Por algum tempo, durante o século XX, o plástico foi considerado uma das maiores invenções da Humanidade. Senhoras e senhores por todo o mundo, usavam como prémio, quando iam às compras. Depois tornou-se numa dor de cabeça, ainda antes de se tornar Inimigo Público número um.

Antes do mais, os números aterradores. Sente-se e tente não ficar muito assustado.

Todos os anos, só os Estados Unidos, geram 34 milhões de toneladas de plástico não reciclável. Assim, o Oceano Atlântico ganhou o seu próprio continente de resíduos de plástico a rivalizar com a mancha de lixo do Pacífico (existem mais quatro vórtices em todo o mundo). No Oceano Pacífico Norte, os peixes ingerem um valor estimado em 24 milhares de toneladas de plástico todos os anos.

O plástico de politeno convencional, feito a partir de combustíveis fósseis, dura entre 500 e 1000 anos antes de se decompor. Considerando que o Ser Humano usa este material há mais de 40 anos, podemos calcular a quantidade de sacos de plástico que existe nos oceanos. E apenas nos referimos a sacos de plástico normais.

Felizmente, alguns países estão conscientes deste desastre ecológico a estão a tomar medidas para resolver este problema à escala planetária. Por exemplo, o Reino Unido tem estado a trabalhar na criação de uma indústria de sacos biodegradáveis e, os Estados Unidos, começam a banir os sacos de plástico e outras formas de plásticos. Outros países como Taiwan, África do Sul e Bangladesh já baniram os sacos de plástico.

Poderia dizer-se: os sacos de plástico são muito convenientes para as compras e já existem bioplásticos feitos a partir de plantas.

Sem dúvida. Contudo, esta não é uma solução para países em desenvolvimento, como o Egipto, onde a maior parte das culturas se destinam inteiramente para a produção e processamento de alimentos ou algodão.

E é por isso que, cientistas e bio-engenheiros da Universidade do Nilo, no Egipto, estão a desenvolver um processo de transformação de cascas de camarão secas, que seriam deitadas fora, numa película fina de plástico biodegradável. O objectivo é conseguir um material biodegradável que possa vir a ser utilizado na produção de sacos de mercearias amigos do ambiente e outras formas de embalamento de alimentos.

Os fundos chegaram em Setembro de 2016 e, desde então, a Dra. Nicola Everitt, professora de engenharia de materiais da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, tem liderado a equipa de pesquisa no Cairo, Egipto. Até agora, descobriram que, a partir de menos de um quilo (duas libras) de desperdício de camarão, conseguem produzir 15 sacos. Isto pode parecer um número pequeno, mas dado que o país importa 3500 toneladas de camarão todos os anos, que resultam em 1000 toneladas de desperdício de casca, os números são bastante aliciantes.

Após seis meses dos dois anos de projecto, a equipa já conseguiu criar um fino e limpo protótipo de plástico, utilizando Chitosan, uma substância que se encontra nas cascas de muito crustáceos.

O Chitosan já é conhecido pelos cientistas. Recentemente, a indústria da bio-medicina tem trabalhado esta substância para utilizar em tecidos, empacotamento de químicos e tratamentos de feridas.

Processamento das cascas

Até agora, a equipa de pesquisa compra as cascas de camarão em restaurantes, supermercados e a pescadores locais a baixos preços. É preciso não esquecer que estamos a falar de desperdício.

Depois, as cascas vão para o laboratório para tratamento químico.

O processo químico é muito simples. As cascas são fervidas em ácido para dissolver o carbonato de cálcio, que faz delas estaladiças. E depois, para remover as células proteicas, a substância obtida é fervida, novamente, numa solução alcalina. Daqui vai resultar a mistura que será convertida num polímero em forma de flocos. Estes flocos podem, então, ser processados para obter a película fina de plástico utilizando métodos convencionais de fabrico.

O processamento de cascas de camarão em Chitosan é particularmente atraente. A substância é, não só, bio-compatível, mas também possui propriedades antimicróbicas e antibacterianas. Acrescenta-se que esta película absorve oxigénio, tornando muito aconselhável para a indústria alimentar dado que prolonga o tempo de vida em prateleira de muitos produtos.

Mais ainda, pessoas alérgicas a marisco não reagem ao Chitosan.

De acordo com a Dra. Nicola Everitt, "até agora, a equipa só produziu pequenas amostras de película e o projecto ainda não está pronto para entrar em produção comercial de larga escala, mas a equipa está a trabalhar arduamente no desenvolvimento dos métodos que permitam a sua utilização generalizada".

Actualmente, a equipa no Egipto trabalha na optimização do processo de extracção de Chitosan, que ainda demora três dias, mas "este prazo vai encolher conforme o processo estiver mais avançado", adicionou a Dr.a Everitt.

Este processo está a ser trabalhado também, no Harvard Wyss Institute for Biologically Inspired Engineering, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Para os pesquisadores americanos, não existe razão alguma para que o plástico não possa ser substituído por outro material biodegradável. As suas opções apontam para a produção de Shrilk, feito a partir de Chitosan.

Testes levados a cabo nos Estados Unidos indicam que o material se decompõe poucas semanas depois de ser deitado fora e fornece ainda nutrientes para plantas.

Chitin, o princípio do Chitosan, é o segundo material orgânico mais abundante no planeta e pode também ser encontrado em células fúngicas, exo-esqueletos de insectos e nas asas de borboletas.

Voltando à Dra. Nicole Everitt: o "uso de um biopolímero degradável feiro a partir de cascas de camarão levará a menor emissão de carbono e vai reduzir a acumulação de comidas e plásticos nas ruas ou em lixeiras. Pode também tornar as exportações mais aceitáveis em mercados estrangeiros num período de tempo entre 10 e 15 anos".


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