Science & Nature

Jan 1, 2018

MILHÕES DE MOLHO

A aquacultura afirma-se, diariamente, como uma importante alternativa às formas tradicionais de abastecimento de pescado, produzindo cerca de metade de todo o pescado consumido no mundo, razão porque é hoje considerado um sector estratégico.

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Por ALFREDO MIRANDA

Hoje em dia, cada vez mais pessoas dependem da pesca e da aquacultura para a sua alimentação e rendimento. Contudo, as práticas prejudiciais e a má gestão ameaçam a sustentabilidade do sector, adverte a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura).

Ainda segundo a FAO, não podemos esquecer que a aquacultura já representa mais de metade de todo o pescado para consumo humano que, em 2014, atingiu um novo máximo anual de 20 quilos per capita.

Pela primeira vez, a produção aquícola mundial (incluindo plantas aquáticas) excedeu a obtida pelas capturas, atingindo 101,1 milhões de toneladas, o que representa 52% de toda a produção de peixe (195,7 milhões de toneladas). A produção mundial atingiu 167,2 milhões de toneladas, das quais 93,4 milhões vieram da captura e 73,8 milhões da aquacultura.

Para a maioria dos investigadores, a aquacultura oferece um enorme potencial para responder à procura por alimentos associada ao crescimento da população global, contribuindo para melhorar a dieta de muitas pessoas.

Todavia, os investigadores não deixam de advertir que para continuar a crescer de maneira sustentável, o sector deve tornar-se menos dependente do peixe selvagem para as rações e introduzir uma maior diversidade de espécies e práticas nas explorações de aquacultura.

Por exemplo, os peixes pequenos podem ser uma excelente fonte de minerais essenciais quando se consomem por inteiro. No entanto, devido às preferências dos consumidores, bem como a outros factores, tem sido observada uma tendência para a produção de espécies maiores, cujas espinhas e a cabeça são, muitas vezes, descartadas.

COMÉRCIO INTERNACIONAL

Para investidores e cientistas, o crescimento da aquacultura é considerado um factor-chave para impulsionar os níveis de consumo global de peixe por pessoa. Na década de 60, o valor era em média de 9,9 kg/habitante/ano. A média passou para cerca de 14,4 kg na década 90 e em 2014 esse valor chegou a 19,7 kg/habitante/ano.

O comércio internacional tem desempenhado um papel importante para que haja um número cada vez maior de escolhas para os consumidores de peixe. Entre os países lusófonos, espera-se que o Brasil lidere o aumento no consumo de peixe por pessoa na próxima década, como parte da América Latina. As outras regiões são a Ásia, a Oceânia e Caribe.

A América Latina e o Caribe vão apresentar uma expansão importante na produção aquícola que pode chegar as 3,7 milhões de toneladas em 2025, um crescimento de 39,9% em relação à 2013/15, período em que foram produzidas em média 2,7 milhões de toneladas anuais.

Já, em âmbito global, a produção aquícola deve crescer até alcançar 195,9 milhões de toneladas em 2025, um aumento de 17% em comparação à produção de 2013/15, de 166,8 milhões.

Não se pode omitir o facto de, em 2014, ter sido registado, pela primeira vez, um aumento na produção em cativeiro em relação às capturas por pesca. O produto proveniente da pesca sempre dominou a mesa do consumidor, mas hoje, 50% do peixe consumido mundialmente é proveniente da aquicultura. Isso significa que, no ano 2025, o mundo vai produzir 29 milhões de toneladas a mais de peixe que em 2013/15 e, a maioria desse aumento, vai acontecer nos países em desenvolvimento por meio da aquicultura.

A REVOLUÇÃO AZUL

A nova "revolução azul", que tem disponibilizado camarão, salmão e tilápia baratos e embalados em vácuo aos congeladores dos supermercados, trouxe consigo muitos dos problemas gerados pela agricultura em terra: destruição do habitat, poluição aquática e problemas relacionados com a segurança alimentar.

Na década de 1980, vastas extensões de orlas costeiras de mangue (vegetação típica de terrenos alagadiços) foram arrasadas para construir unidades de aquicultura. A poluição provocada pela aquacultura (uma mistura pútrida de azoto, fósforo e peixes mortos) é agora um perigo generalizado na Ásia, onde se localizam 90% dos peixes de aquicultura. Para manterem os peixes vivos em jaulas densamente povoadas, alguns aquicultores asiáticos utilizam antibióticos e pesticidas de uso proibido nos Estados Unidos, na Europa e no Japão.

As unidades de aquacultura de outras regiões do globo também não estão isentas de problemas. A moderna indústria do salmão, que ao longo das últimas três décadas instalou jaulas densamente povoadas e cheias de salmão em fiordes prístinos da Noruega à Patagónia, tem sido atormentada por parasitas, poluição e doenças. As unidades de aquacultura de salmão da Escócia perderam quase 10% dos seus efectivos em 2012, devido a um surto infeccioso; no Chile, calcula-se que a anemia infecciosa tenha provocado prejuízos de 1,4 mil milhões de euros na aquacultura do salmão desde 2007.

O problema não está na vetusta arte da aquacultura em si, mas na sua intensificação. Os piscicultores chineses começaram a criar carpas em arrozais há pelo menos 2.500 anos. No entanto, a produção actual de aquacultura representa 42 milhões de toneladas por ano e as jaulas de peixes orlam as margens dos rios, lagos e mares. Os piscicultores introduzem nos seus viveiros variedades de carpa e tilápia de crescimento rápido, alimentando-as com farinha de peixe concentrada para maximizar o seu crescimento.

Mas, como defendem os investigadores, existe uma solução simples para estes problemas: criar peixes em tanques instalados em terra e não em jaulas num lago ou no mar, porque se não deixarmos os oceanos em paz e sossego, "a mãe natureza vai fazer-nos pagar com juros altos". 

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