Food & Beverage

Set 1, 2016

CAFÉ DE BERÇO PRIVILEGIADO

Poucas pessoas conseguem imaginar a vida sem café. Ao pequeno almoço, ou depois do almoço, seja um expresso ou um café duplo – sem açúcar –, o café ganhou um lugar de destaque no dia a dia de grande parte da população mundial. É produzido por todo o Mundo, mas hoje, vamos falar-lhe um pouco da produção e história do café na Índia.

A existência do café está envolta num enorme mistério, do qual poucos registos há. A planta é nativa de toda a África, pensando-se que poderá também ser autóctone da Arábia, pelo que não é possível atribuir um só local e época à sua utilização, anterior a meados do século XV. Os registos que sobreviveram sobre a sua utilização ou existência datam deste período, nos mosteiros Sufis – uma corrente do Islão - do Iémen, no sul da Arábia. O café era exportado em grãos da Etiópia para Arabia Felix, o actual Iémen, onde foi cultivado e comercializado, e daqui expandiu-se para outros países. No séc. XVI, já teria chegado a todo Médio Oriente, Pérsia, Turquia e Norte de África, de onde chegaria à Europa, e assim ao resto do Mundo.

O café da Índia também é proveniente do Iémen, mas não por meio de importação. A lenda de como ali chegaram conta que, no século XVII, os mercadores eram muito protectores do seu café, pelo que o vendiam já tostado e moído, ou mesmo em infusão. Um sufi Indiano chamado Baba Budam estava em peregrinação e aquando da sua passagem por Moca, Iémen, cidade mercadora de café, descobriu a bebida, de nome qahwa, e decidiu trazer os grãos que lhe davam origem para a sua terra. Amarrou secretamente sete grãos de café ao peito, e semeou-os nas colinas em Chikmagalur, Karnataka, no Sudoeste da Índia. Estas colinas são hoje chamadas Baba Budangiri - Colinas Baba Budan.

Foi aqui que nasceu o cultivo do café na Índia. Ao longo dos 400 anos seguintes, a indústria do café desenvolveu-se de forma mais ou menos estável. As plantações de café foram-se multiplicando, de tal forma que chegaram a criar um ecossistema vibrante. No século XX, a indústria sofreu alguns sobressaltos, com as Guerras Mundiais e os cortes de importações, mas conseguiu recuperar, e é hoje a origem de 16 variedades únicas de café, provenientes de zonas distintas de produção. Destas variedades, três são cafés de especialidade: o Monsooned Malabar, o Mysore Nuggets e o Robusta Kaapi Royale.

Começando pelo Monsooned Malabar, este é um café humidificado que teve origem num imprevisto: há vários séculos, quando o café estava a ser transportado em navios para a Europa, os ventos das monções causaram o inchaço dos grãos, fizeram com que mudassem de cor, e atribuiram-lhes um sabor "intensamente suave". Hoje em dia, reproduz-se esse efeito em curadorias criadas especialmente para este propósito, na Costa Oeste do Sul da Índia. Nestas curadorias, o vento das monções circula livremente pelos sacos abertos, infiltrando-se, permitindo que os grãos absorvam a humidade.

O Mysore Nuggets, é um café exótico, preparado com arábicas lavadas, cultivadas nas regiões de Chikmagalur, Coorg, Biligiris, Bababudangiris e Shevaroys. Estes grãos de café são muito grandes, de cor verde-azulado, de aparência polida e limpa. A infusão tem um aroma rico, corpo médio a bom, boa acidez e sabor delicado, com um toque de especiaria. Este é um café raro e premium, que verdadeiramente representa o café de qualidade da Índia.

Por fim, o Robusta Kaapi Royale, preparado com grãos de Robusta Parchment das regiões de Coorg, Wayanad, Chikmagalur e Travancore. Os grãos são grossos, redondos com as pontas bicudas, e de tom cinzento-azulado. A infusão traz um corpo cheio e um sabor suave, macio e rico.

Ainda antes de ser colhido, o café indiano conta com uma origem única e privilegiada. Aqui, as plantações crescem sob uma densa sombra natural, como um dossel de árvores, que têm as funções de prevenir a erosão do solo nos terrenos acidentados, enriquecer o solo ao reciclar nutrientes das camadas mais profundas, para além de proteger os cafezeiros de flutuações de temperatura sazonais, e albergar flora e fauna diversificadas. Contam-se perto de 50 tipos diferentes de árvores de sombra nestas zonas.

Há ainda diversas especiarias, já que uma grande variedade de especiarias e árvores de fruto, tais como pimenta, cardamomo, baunilha, laranja, e banana, crescem ao redor dos cafeeiros.

A Índia exporta quase 80% da produção de café para mais de 45 países, entre eles, a Alemanha, Rússia, Espanha, Bélgica, Eslovénia, Estados Unidos da América, Japão, Grécia, Holanda, França e Itália.

Apesar de ser maioritariamente exportado, tem-se verificado um crescimento nas vendas domésticas. O consumo de café na índia mais que duplicou, (estima-se que passou de 50.000 milhões de toneladas em 1998 para 115.000 milhões em 2011), fazendo com que uma série de cadeias de café nacionais e internacionais tivesse estabelecido negócios no país.

Há cerca de 280.241 produtores de café na Índia, 99% dos quais são pequenos produtores, e apenas 1% são médios a grandes produtores. Em 2015-16, as plantações de café indianas empregavam cerca de 632.993 pessoas diariamente.

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