Business & Industry

Mai 26, 2018

SOCIEDADE "CASHLESS"

Embora sob formas e suportes diferentes, o dinheiro está na história do ser humano há mais de 3000 anos. Uma realidade incontornável para uma sociedade de consumo que vemos 'acelerar' a cada dia que passa

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Por SARA LOUP e JORGE MATIAS

A primeira cunhagem oficial de moedas data do ano 600 a.C., na Lydia (localizada actualmente na Turquia), pelo rei Alyattes. Eram feitas de uma liga natural de prata e ouro e impressas com imagens que indicavam o seu valor. A cunhagem permitiu a este reino agilizar as trocas de mercadorias, tanto interna como externamente, e fez do reino da Lydia um dos mais ricos e próspero da Ásia Menor.

Não sendo possível datar o primeiro caso, sabe-se hoje que, pelo menos desde o século XIII – quando o mercador veneziano Marco Polo chegou à China – a utilização de papel-moeda era prática corrente e natural.

Na Europa, a utilização de moedas em metal resistiu até meados de 1600, quando os banqueiros começaram a imprimir vales garantindo ao seu portador uma determinada quantia. Esta prática veio facilitar as trocas comerciais, sobretudo com colónias longínquas para onde se tornava complicado enviar grandes quantidades de prata ou ouro.

Conforme os sistemas bancários foram evoluindo – bem como os valores das transacções comerciais – também foram surgindo novas formas de garantia ou aval financeiro.

Surgiram os cheques bancários, que permitiam celebrar transacções seguras entre comerciantes, ainda que em lugares remotos ou longínquos; mais tarde, as letras avalizadas internacionalmente; e, já perto do final do século XX, aquilo a que hoje chamamos "dinheiro de plástico" – cartões em plástico, equipados com uma faixa de registo magnético que estabelece uma ligação directa à entidade bancária e permite, dessa forma, adquirir bens, serviços ou produtos em qualquer parte do mundo.

Contudo, mesmo sendo uma das mais importantes invenções do ser humano, esta bonita história de evolução social e económica (a própria essência do ser humano), pode estar muito perto do fim.

O que está a acontecer

A tecnologia, a celeridade e acessibilidade em qualquer lugar, têm vindo a transformar o comércio, os consumidores e as formas de pagamento tradicionais. Já entrámos numa era em que a sociedade prefere outras formas de pagamento, mais seguras e com menor recurso ao dinheiro físico: a sociedade cashless.

A ideia de estarmos constantemente com dinheiro vivo na carteira, já não é tão comum como outrora. As gerações mais jovens tendem a comportar-se de acordo com a tecnologia que, ao desenvolver-se, tem dado novas formas de transacção financeira ao comércio e, sobretudo, ao dinheiro e aos métodos de pagamento.

O comércio on-line (e-commerce) teve o seu 'boom' com o aparecimento de empresas como a Amazon, eBay e Alibaba Group, na década de 1990. Esta "nova forma de comprar" pretendia substituir a compra numa loja física, tornando-a mais rápida, cómoda, acessível e instantânea.

Ao longo das últimas décadas, o conceito de 'e-commerce' tem vindo a alterar o modo como são efectuadas as compras e até mesmo o papel do consumidor. Este ganhou um novo papel e tem agora um novo poder de tomada de decisão, que passou a ser mais instintivo, mas também mais informado. Em depoimentos à Forbes, Kiki Del Vale, vice-presidente da MasterCard, afirmou que "os consumidores são hoje mais inteligentes e têm maiores expectativas do que nunca".

De facto, o consumidor é, hoje, mais informado e mais astuto, exigindo que as grandes empresas acompanhem o desenvolvimento tecnológico e sigam as pegadas das gerações, actualizando-se, apelando a experiências de 'check-out' mais seguras e fiáveis e ainda à segurança de tratamento de dados no acto do pagamento pela internet – uma febre consumista que foi muito impulsionada pelo acesso e vulgarização dos computadores.

Com o aparecimento dos 'smartphones', a tendência enraizou-se nos costumes dos indivíduos e tem vindo a ganhar maior terreno. No entanto, já não são só os telemóveis 'touch' que permitem esta funcionalidade, também anéis, pulseiras e outros tipos de 'gadgets' têm vindo a ser trabalhados para permitir as compras, não só on-line, mas também em lojas físicas, dando a possibilidade ao consumidor de efectuar pagamentos com meios digitais, por associação da sua imagem, através de uma fotografia de reconhecimento, ou da impressão digital.

Novas formas de pagamento, como a PayPal, o Mastercad ou a MBWAY, permitem maior rapidez no acesso ao dinheiro, transacções instantâneas e maior conforto no acto da compra. No entanto, apesar de a nível mundial terem ganho importância – um relatório da Capgemini e do BNP Paribas, dá conta de um crescimento de 11% por ano das transacções digitais a nível mundial – estas ainda não roubaram o papel do dinheiro que, de acordo com Bill Ready, director de operações da PayPal, "terá uma morte lenta".

Mas, será que efetivamente o dinheiro "vivo" irá desaparecer?

A tendência para uma sociedade 'cashless', já é falada há cerca de duas décadas. Esta, parte do princípio que, com o desenvolvimento da tecnologia e da "Internet of Things" (IoT), o consumidor irá cada vez mais priorizar a utilização do dinheiro virtual para efectuar pagamentos de qualquer serviço – aquisição de produtos ou bens – em substituição do papel-moeda.

O Banco Mundial diz que o dinheiro digital poderá ter um impacto ainda maior que o papel-moeda no desenvolvimento mundial.

Um exemplo de que um estilo de vida "cashless" está em crescimento, especialmente entre os jovens, são as novas opções adoptadas em alguns festivais de música. O Bonnaroo Music and Arts Festival, que acolhe 65 mil jovens todos os anos em Manchester, Tennessee, nos Estados Unidos é um dos mais recentes exemplos.

Em 2017, as pulseiras de acesso usadas há mais de uma década, foram equipadas com cartões carregados com dinheiro. Segundo um dos organizadores – e de acordo com os utilizadores – perderam-se muito menos carteiras e a adesão dos jovens foi quase total.

A impressão de papel-moeda é uma medida dispendiosa e essa é uma das razões que levaram a Suécia, Noruega e Nigéria a incentivar a retirada do dinheiro de circulação. Os resultados começam a notar-se: redução de fraudes e pagamentos rápidos e simples.

Empresas chinesas como a Alibaba e a Tencent convenceram os seus funcionários a usar os pagamentos electrónicos ao ponto de serem movimentados mais de três mil milhões de dólares por ano. E as estatísticas mostram que, o Canadá – onde cada cidadão tem pelo menos dois cartões de crédito ou débito – é um dos países mais "cashless" do mundo actualmente; e na Suécia, os pagamentos com dinheiro vivo, foram reduzidos a apenas 20 por cento das transacções diárias regulares.

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