Culture & Art

Jan 1, 2018

QUEIMAR PARA PROTEGER

A infinita paciência e sabedoria, bem como o profundo respeito pelos elementos, são características que o mundo reconhece ao povo japonês. Isso aplica-se também ao culto da sua história e à preservação de métodos e costumes mais tradicionais.

Por LUÍS RAMALHO

O termo referido em inglês para a técnica que lhe apresentamos é "Shou Sugi Ban" e, traduzido literalmente, significa "placa de cedro queimado". E a verdade é que esta definição serve na perfeição ao resultado final.

De acordo com a literatura consultada, os registos mais antigos da utilização desta técnica remontam ao ano 1700, mas é bastante provável que se trate de uma técnica bastante mais antiga. Acredita-se que esta técnica tenha sido desenvolvida a pensar especificamente nas casas dos pescadores da ilha Naoshima, no Japão, uma vez que estão muito expostas à agressividade do sal marinho.

A aplicação desta técnica de tratamento de madeiras ficou esquecida durante muito tempo, devido ao aparecimento e desenvolvimento de materiais alternativos mais modernos e mais sofisticados. Isto deveu-se também ao facto de as madeiras no Japão terem escasseado durante um longo período de tempo, já que os japoneses devastavam florestas inteiras para obter os materiais para as suas construções, mas também porque esta era essencialmente utilizada como lenha para aquecimento das casas tradicionais japonesas.

Por isso, a madeira que restava, sendo importada, tinha um custo bastante elevado tornando incomportável e desinteressante para a aplicação generalizada desta técnica e, assim, a técnica foi caindo em desuso ao longo dos tempos até que quase desapareceu.

A viragem do milénio e a nova consciência ecológica, contudo, vieram reverter esta tendência de esquecimento e as novas correntes arquitectónicas redescobriram esta arte secular de tratamento de madeiras para aplicação em revestimentos exteriores.

O relançamento desta técnica deu-se através dos trabalhos do arquitecto japonês Terunobu Fujimori e, actualmente, este é considerado um material vanguardista.

O facto de se tratar de um método ecológico, que não recorre à utilização de produtos químicos, preserva as madeiras actuais por um longo período de tempo e que evita novos cortes de árvores, despertou o interesse entre arquitectos, designers e decoradores ocidentais e, hoje, ela pode ser apreciada em peças de design e mobiliário, utensílios domésticos e em alguns dos mais emblemáticos edifícios, um pouco por todo o mundo.

A técnica consiste em queimar a superfície da madeira a tratar, com um maçarico. De seguida, a madeira é lavada ou escovada para retirar o excesso da superfície queimada, para que não liberte resíduos de carvão.

Posteriormente, a madeira é coberta (de preferência, a pincel para que a aplicação cubra toda a superfície) com um óleo espesso de cedro.

E finalmente (caso prefira um acabamento ainda mais escuro e uma maior penetração do óleo nos poros da madeira) pode-se voltar a queimar (ou apenas a aquecer) muito suave e superficialmente, toda a área tratada.

Ainda de acordo com a literatura local, a madeira tratada com esta técnica pode durar entre 80 a 100 anos, sem manutenção adicional, mas pode durar mais tempo se for feita uma manutenção a cada 10 ou 15 anos com uma renovação do revestimento de óleo. Também se torna resistente aos ataques de pragas de animais, não apodrece e resiste à incidência de raios solares e ao fogo.

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