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Nov 1, 2017
ESPÍRITO BUDISTA
A arte marcial japonesa criada no século XIV é hoje um desporto de alta competição e uma arte puramente exibicional. Mas tempos houve em que, conhecer e manejar bem uma espada, podia estabelecer a linha entre a vida e a morte.
<Por PIOTR PETROVICH
Esta arte é desenvolvida a partir das técnicas tradicionais de combate com espadas dos samurais, vinda dos tempos do Japão feudal.
A espada era tida como uma das mais nobres armas, por implicar um combate de proximidade onde os guerreiros colocavam à prova perante o inimigo a sua honra e a sua bravura. Por esta razão, eram também oferecidas aos templos budistas como tesouros divinos ou como símbolo da nomeação de um cargo importante.
É uma das inúmeras armas utilizadas naquela época nas batalhas e são inúmeras as histórias, os mitos e as lendas tradicionais japonesas sobre esta verdadeira arte.
Conta-nos a história que desde meados do século XV e durante cem anos o Japão passou por um período de guerras civis entre clãs. Durante este período, a técnica de luta com espada foi apurada pelos guerreiros e nasceram muitas correntes de prática de combate com espada.
Este apuramento ficou a dever-se ao facto de os treinos não serem praticados com recurso a espadas de bambu, nem protectores para o corpo. Cada escola tinha os seus próprios métodos, técnicas e movimentos que eram repetidas vezes sem conta até que os movimentos de ataque e defesa fossem absorvidos pelo praticante (kenshi ou kendoca).
É a partir do início do século XVII que se instala o sistema feudal e um sistema de classes na sociedade japonesa. É a partir daqui que, com as influências do confucionismo e do budismo, se apuram as técnicas de combate e os métodos de aprendizagem adquirem os valores morais e espirituais que hoje se reconhecem a grande parte das artes marciais de origem japonesa.
São estes apuramentos de carácter que levam a que a prática de várias artes se enraizasse na cultura japonesa sob a liderança dos chefes dos clãs, mas por forma a abranger toda a sociedade, generalizando assim a cultura pelos valores morais e sociais.
É só em meados do século XVIII que são propostas a utilização de protectores primitivos e espadas de bambu, o que trouxe a prática do Kendo para próximo do que conhecemos actualmente.
A arte foi evoluindo e integrando cada vez mais as componentes espiritual e moral sempre com o objectivo da formação e educação do ser humano.
Em 1866, devido à contínua paz, o recurso a armas de fogo foi abolido e o desenvolvimento destes artefactos foi interrompido por ordem do imperador. Por outro lado, o uso de espada perdurou ao longo dos séculos, assente na premissa muito japonesa "o caminho deve ser percorrido dentro da lei da pena e da espada".
A classe dos guerreiros samurai foi extinta em 1876, novamente por ordem do imperador, sob uma visão de modernidade que o Japão pretendia abraçar. Por esta razão, a prática de Kendo foi extinta das actividades curriculares das escolas até 1890, ano em que voltou a fazer parte do sistema educativo, embora como actividade extracurricular.
A disciplina foi alvo de uma política de difusão e desenvolvimento a partir de 1895, graças à criação da Associação Dai Nippon Butokukai que agregou todas as escolas e técnicas da prática de Kendo.
De acordo com a filosofia da prática da modalidade, esta deve servir para moldar o corpo e a mente, cultivar um espírito vigoroso através de treino rígido e rigoroso, manter um espírito de cortesia, educação e honra e manter-se sempre no caminho do autoaperfeiçoamento. Importante também referir que durante a prática da modalidade o kenshi (ou kendoca: praticante de Kendo) não deve tentar aplicar golpes em pontos incorrectos, nem desperdiçar golpes, antes atacar o adversário na tentativa de lhe quebrar a postura através de golpes aplicados sem pensar na morte.





