Research & Education

Jun 1, 2017

Ciclovias que brilham

Até há relativamente pouco tempo os materiais que brilham no escuro não tinham funções que fossem muito além do prazer decorativo. Mas a luminescência foi conquistando aplicações mais utilitárias e hoje, literalmente, está nas ruas. 

As últimas notícias a este respeito chegam-nos da Polónia. Em Outubro passado foi inaugurada em Lidzbark Warminski, uma cidade no norte do país, uma pequena ciclovia que brilha no escuro. Trata-se de um projecto concretizado pelo TPA Instytut Badan Technicznych Sp. z o.o. e consiste na utilização de partículas sintéticas aplicadas sobre o asfalto, chamadas de "luminóforos" – compostas de fósforo – que são "recarregadas" pela luz solar e à noite emitem uma luz azul durante cerca de 10 horas seguidas.

O projecto polaco teve como referência inspiradora uma outra ciclovia, construída entre Eindhoven e Neuenen, na Holanda, em 2015, para assinalar os 125 anos da morte de Vincent van Gogh. Foi baptizada com o nome de "Noite Estrelada" e os seus efeitos pontilhístas luminescentes azuis e verdes dispostos em espirais evocam a pintura do artista. O autor do projecto foi o designer holandês Daan Roosegaarde e a empresa que o concretizou foi a Heijmans. O princípio utilizado aqui parece ser semelhante ao posteriormente utilizado na Polónia – o revestimento do asfalto ainda molhado com uma substância fosforescente - o revestimento fotossensível utilizado, contudo, terá sido outro.

Um projecto suspenso

Antes da "Noite Estrelada" já Roosegaarde e a Heijmans vinham trabalhando em conjunto procurando concretizar o conceito das estradas luminosas. Em 2014 "iluminaram" um troço de cerca de meio quilómetro da auto-estrada N329, em Oss, 100km a sudeste de Amesterdão, recorrendo a esta espécie de tinta fotoluminescente nas faixas que a limitam. O efeito foi o de linhas verdes luminosas que brilham durante oito horas ao longo da estrada como se néon se tratasse.

O designer procurou entender a bioluminescência das medusas num esforço para reduzir a necessidade de dispêndio energético e a pegada ecológica. Mostrou-se surpreendido com as quantias avultadas que são gastas em investigação e desenvolvimento de automóveis em detrimento das estradas que, essas sim, determinam o aspecto da paisagem e chamou à atenção para os crescentes cortes na iluminação rodoviária que os governos têm promovido. Afirmou que este era também um empreendimento que se ocupava da segurança.

Apesar de não ter divulgado o segredo do produto, Roosegaarde afirmou que se trata de uma versão mais evoluída das tintas fluorescentes que, inutilmente, só funcionam por 30 minutos. Prevendo o clima nublado da Holanda, o troço de estrada em questão dispunha de painéis solares que, em alternativa, carregavam artificialmente as faixas luminosas.

O projecto holandês foi, no entanto, suspenso pouco tempo depois. A "tinta" não resistiu às condições de extrema humidade na região e foi sendo apagada pelas chuvas e as faixas luminosas tornaram-se inconsistentes.

Os vários caminhos para a luz

Mas a Heijmans e o designer holandês parecem não ter desistido e dizem estar a trabalhar e a testar uma nova versão do produto anterior. Têm também em vista outros projectos como estradas que carregam carros eléctricos, tintas para os pavimentos para sinais de aviso que apenas surgem em determinadas condições atmosféricas, iluminação das estradas alimentadas pelo vento gerado pela circulação dos automóveis e a instalação de células que detectam a aproximação dos carros e accionam a iluminação da estrada apenas à sua passagem.

Em França, entretanto, um troço de estrada foi revestido com um tipo de asfalto que funciona como painel solar, que permite a sua iluminação e a iluminação pública da povoação mais próxima.

Quanto às estradas luminescentes, os avanços mais significativos parecem vir do outro lado do globo, do México, pela mão do engenheiro e investigador José Carlos Rubio. Este cientista, em conjunto com uma equipa de físicos e químicos, estudou a composição do asfalto e trabalhou na modificação da sua microestrutura de modo a permitir a absorção de radiações ultravioleta pela sílica (componente presente no material). O projecto foi testado, aprovado e 4 mil milhões de toneladas deste produto foram produzidas para comercialização. 

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