Culture & Art

Jul 1, 2016

UM SEGREDO BEM GUARDADO

Desde a Antiguidade que o Homem se encanta com os efeitos que os elementos têm uns nos outros. Vestígios de artefactos de ferro do IV milénio a.C. foram encontrados no Egipto, mostrando que, desde muito cedo, o Homem conseguiu extrair ferro e trabalhá-lo.

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Embora não se saiba quando se deu o início da fundição, o ferro forjado existe desde o I milénio a.C., e nos finais do II milénio d.C., o ferro já estava a ser extraído de minérios, e levado da China para África, a Sul do Saara.

Os ferreiros eram figuras respeitadas em diversas culturas, eram muito considerados e admirados. A sua arte era considerada quase magia. Uma vez que mantinham o ofício secreto, como acontecia com outros ofícios, por exemplo a construção, ninguém sabia bem como conseguiam fazer o que faziam, até as mais simples ferramentas pareciam nascer magicamente da pedra e do fogo.

Nessa época, quando apareciam peças intricadas e belas, com padrões e formas que diferiam das mais comuns, as pessoas presumiam que elas vinham dos deuses. Era o que pensavam do aço damasco, também chamado aço damasquino, um dos mais famosos e mais fortes aços da era pré-industrial, tipicamente usado em armas. A técnica para o seu fabrico foi desenvolvida antes do nascimento de Cristo, e as armas de aço damasco tornaram-se populares entre 200-400 d.C. Na Europa, tornou-se conhecido a partir do século XI, quando os Cruzados chegaram ao Médio Oriente. É um material misterioso e excepcional, cuja força deriva do processo de fabrico.

O aço damasco era caracterizado por uma dureza extraordinária, adquirida através do processo de fundição, e pelo padrão listado e intricado, facilmente reconhecível, também conhecido nalguns como "padrão damasquino". O padrão deriva das variações dos níveis de carbono do material original, bem como as impurezas que nele existe.

Fabricar aço damasco envolvia um processo de carburização, onde o ferro era aquecido ao rubro, e posto em contacto com vários materiais carbonosos em recipientes fechados, resultando num conteúdo de carbono irregular, e em diversas impurezas. Isto fazia com que algumas partes fossem mais duras, logo mais quebradiças, do que outras. A liga de aço final chegava a conter 1,8% de carbono, sendo depois martelada em forma de barra. Depois da primeira barra estar formada, era repetidamente dobrada e caldeada, interligando as diferentes camadas e "misturando" as partes duras com as partes moles.

Os padrões que ficavam depois da têmpera e do acabamento serviam de guia de qualidade do aço, bem como da perícia do ferreiro, já que esses padrões significavam que o material estava mais ou menos homogéneo. As imagens são geradas durante a fase de bater e fundir as barras, e atravessam a peça toda, não são superficiais: o aço oxidado é mais claro, enquanto o outro é mais escuro. Os dois tipos de aço reagem de forma diferente no processo de oxidação ácida, o que significa que o padrão só é revelado na superfície depois deste processo. Quanto mais intricado o padrão, mais homogénea a mistura, portanto, menos susceptível a partir-se, dobrar ou de a lâmina ficar cega. 

Este aço ganhou uma reputação formidável. A fama espalhou-se ao longo de séculos, mas sempre em segredo, pois os ferreiros nunca revelavam o verdadeiro mistério. De facto, até hoje, os métodos exactos não são conhecidos, eram secretos no seu tempo, e perdidos ao longo de gerações, embora seja possível criar materiais idênticos por processos semelhantes. Há até quem tente reproduzir o aço damasco, atingindo resultados muito próximos do original, e quem o imite pelas suas propriedades estéticas, mais do que pelas físicas. No entanto, para estas peças serem "autênticas", não só tinham de apresentar o padrão damasquino característico na superfície, mas também a composição química original e a microestrutura que confere o padrão ao metal.

O aço damasquino caiu no esquecimento após a revolução industrial, porque o fabrico e obtenção eram, nessa altura, mais fáceis e melhores, e os ferreiros que sabiam os segredos do ofício não tinham necessidade de passar os conhecimentos. Hoje, o aço damasco seria mesmo obsoleto. Os contos da força deste material datam de tempos em que estas eram as lâminas mais fortes, mas a tecnologia actual permite adaptar os materiais às necessidades, sendo os materiais escolhidos de acordo com estas necessidades, tornando-se assim os melhores nos seus âmbitos de utilização.

O aço damasco foi sempre símbolo de respeito, força, beleza e classe. Ao longo da História, as figuras proeminentes, quer fossem guerreiros ou imperadores, romanos ou celtas, vikings ou árabes, quem possuísse tais armas podia ser considerado invencível. Não era apenas uma prova de poder e abundância, as suas propriedades místicas eram também afamadas, atribuídas pela "magia" do ferreiro.

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