Culture & Art

Mai 1, 2016

UMA CALÇADA PORTUGUESA CONCERTEZA

Elemento de atracção mundial, a calçada portuguesa permite passear literalmente por cima da arte pública mais antiga da cidade de Lisboa, sem reparar que pisa estrelas, peixes, flores, liras, pássaros, um código QR ou o rosto da fadista Amália Rodrigues. Recentemente envolta em polémica devido à sua possível extinção, a calçada portuguesa é considerada arte, evoluiu ao longo dos tempos, tem vantagens e desvantagens.

<

Em Portugal, o pavimento mais comum dos passeios é a denominada pedra de calçada, elaborada pelos calceteiros-artistas, que inundaram com os seus mares de pedra as praças e artérias das cidades, principalmente de Lisboa. Esta arte, que nasce da abstracção da cor, recorre ao contraste, salienta o desenho, possui um sentido estético e utilitário que nunca cansa a visão, mas que morre por falta de zelo e de simpatia dos que a vêem como pouco segura e funcional.

Estes são precisamente alguns dos aspectos que estão na origem da polémica que envolveu a calçada portuguesa quando foi, recentemente, anunciada a sua extinção em alguns locais da capital. A proposta da autarquia é manter a calçada nos locais históricos e substituí-la por outros pavimentos, nos locais onde esta levanta problemas de mobilidade, segurança e conforto. Os opositores da medida defendem que o problema reside na falta de manutenção e qualidade da calçada e apontam algumas vantagens: luminosidade, durabilidade, é reutilizável e personalizável, 100% mineral - o que resulta num menor impacto energético, adaptável, artesanal, não deixa resíduos de obra, embeleza e dignifica o espaço público, e não impermeabiliza o solo – contribuindo assim para um melhor escoamento das águas.

Reconhecida internacionalmente como uma manifestação da cultura Portuguesa, é responsável pela criação da profissão de calceteiros – especialistas nesta arte esculptórica cada vez mais rara. Actualmente, a Câmara de Lisboa tem 20 calceteiros, em comparação com os 400 de outros tempos.

Do Esplendor ao Esquecimento

Herança histórica da cultura e tecnologia de construção romanas impostas durante o reinado de D. João II, no século XIV, a calçada portuguesa foi impulsionada pelo governador do Castelo de S. Jorge, situado em Lisboa, entre 1840 e 1846, o Tenente General Eusébio Furtado, que em 1842 transformou a fortaleza e arredores em lugares de passeio. Recorreu então à mão-de-obra dos presidiários do Castelo, que assentaram um tapete de pequenas pedras de calcário branco, cortado a espaços por linhas de pedras de basalto negro, num desenho em ziguezague. O feito foi de tal forma apreciado pelos lisboetas que em 1848, levou à aprovação do projecto do Militar para a Praça do Rossio. A obra, designada de "Mar Largo" em homenagem aos "Descobrimentos Portugueses", com 8712 m², foi elaborada apenas com calcário "vidraço" branco e negro, em 323 dias.

A maioria das ruas da Baixa de Lisboa foram sendo calcetadas a basalto, nomeadamente, o Largo de Camões em 1867, o Jardim do Príncipe Real em 1870, a Praça do Município em 1876, o Cais do Sodré em 1877, o Chiado em 1894, a Avenida da Liberdade em 1879 e em 1908 a Praça do Marquês de Pombal. Entre 1950 e 1960, foram convidados artistas plásticos como Abel Manta, Clara Smith e Maria Keil para desenharem motivos para a calçada. Ventura Terra, Cassiano Branco e o arquitecto Pardal Monteiro projectaram partes da calçada no Saldanha, Avenida da República e Avenida da Liberdade.

O sucesso da calçada portuguesa levou-a a várias cidades do Mundo: Rio de Janeiro, Luanda, Maputo, Macau, Nova Iorque e Caracas, onde foi colocado um revestimento tradicional português em homenagem ao poeta luso, Luís Vaz de Camões, em 2013.

A calçada evoluiu a par com a tecnologia, exemplo disso é o código QR (código que pode ser lido por "smartphone") feito em pedra na Rua Garrett, no Chiado, Lisboa, desenvolvido pela agência de publicidade MSTF Partners. O código remete para informação cultural e turística sobre a zona, a história da calçada e um excerto com o som dos calceteiros.

Inspirado pela capa do disco "Amália, As Vozes do Fado", o artista urbano Vhils criou, em conjunto com os calceteiros da Câmara de Lisboa, o rosto da fadista Amália Rodrigues em calçada. O retrato aparece como uma onda do mar que começa no chão e sobe pela parede. "Assim, quando chover, faz chorar as pedras da calçada", explica Vhils, fazendo a ligação entre a obra e o fado.

Mais artigos

DestaquesArtigos

  • _MSS8814

    Business & Industry

    Jun 20, 2018

    NOVO CICLO DE INVESTIMENTO EM ANGOLA

    A economia de Angola está a iniciar um novo ciclo de recuperação, para cujo aproveitamento se conta com a recuperação – que já se verifica – do preço do petróleo e com a assistência técnica do Fundo Monetário Internacional

    ...

  • 226c441149909061a3a62986fcadd917

    Sport

    Abr 1, 2017

    NAGINATA - A ARTE QUE FAZ O CARÁCTER

    Se há herança que o Oriente vai dando à Humanidade, é inegavelmente, uma diversidade de disciplinas que procuram a evolução do Ser e que conduzem à elevação física, mental e espiritual. Artes Marciais como o Karaté, incluído...

  • MokshJewellery002.jpg__1536x0_q75_crop-scale_subsampling-2_upscale-false

    Luxury & Fashion

    Abr 1, 2017

    MOKSH AND KAMYEN - MAIS BRILHANTE QUE O SOL

    Existe alguma outra nação que goste tanto de adornar as suas mulheres como os povos da Índia? Desde a cabeça, narizes, braços, cintura, até aos dedos dos pés, o arsenal feminino indiano tem peças sofisticadas de joalharia...


  • Depositphotos_96937952_xl-2015

    Luxury & Fashion

    Abr 1, 2017

    LÃ DE CAMELO - DE QUENTE PARA MAIS QUENTE

    Se já sentiu arrepios ao ver o preço de um casaco de lã de camelo, pense só no conforto que tal investimento lhe poderia trazer em noites mais frias. A lã de camelo é um tecido macio, fofo, confortável, quente e respirável.

    ...

  • 1986661-eye_1024

    Helthcare & Wellness

    Jul 1, 2017

    SOLUÇÕES À VISTA

    Uma das maiores causas de cegueira no ser humano é a degeneração dos fotorreceptores da retina. Até agora, não existe um tratamento clínico eficaz para estes distúrbios na retina. Mas isto parece que vai mudar em breve.

    ...

  • 19620901_739735632865157_1070968012579382532_o

    Home & Design

    Ago 1, 2017

    ESTILO OCIDENTAL, SABEDORIA JAPONESA

    Não precisa ver o filme Kill Bill-Volume 2, ser uma grande chef ou um mestre de espada para saber que as melhores lâminas do mundo são japonesas. A sua tradição no fabrico de lâminas vem desde o século XIII.


  • Business & Industry

    Out 1, 2015

    Uma bela casa

    A Raine & Horne oferece um serviço de imobiliária que consiste em vendas, leasing, gestão e consultoria. Os vastos recursos que estão disponíveis para todos os escritórios da rede Raine & Horne asseguram aos clientes desde...

  • 1

    Food & Beverage

    Jun 1, 2015

    Softy, tasty, creamy

    Ben Cohen and Jerry Greenfield grew up in Long Island. They became friends in high school. After high school, Ben attended several colleges, but he would always end up being expelled.Jerry graduated from college, but could not go to...

  • capri-sandals-ivana

    Luxury & Fashion

    Ago 1, 2016

    SANDÁLIAS SÃO OBRAS DE ARTE

    Consideradas um must have, as "sandálias Capri" comemoram 70 anos. São manufacturadas na ilha italiana de Capri para o Mundo, e inspiradas em mulheres reais. O cuidado dedicado a cada par e aos produtos utilizados fazem de...